Não deixei o Dia Nacional do Escritor passar em branco... Talvez apenas o tenha deixado passar em preto e branco. Afinal, a folha de photobooth que acompanha esta publicação não é um exercício de vaidade, tampouco uma tentativa de provar que um escritor pode fazer dezesseis caretas diferentes diante de uma câmera. É, antes de tudo, uma pequena confissão. Ontem, 25 de julho, celebramos o Dia Nacional do Escritor . Hoje, resolvi comemorar a data mostrando um pouco daquilo que raramente aparece nas fotografias de divulgação de um livro: a estranha multidão que habita um único autor. Durante muito tempo me perguntaram por que assino obras com nomes diferentes. Alguns imaginam estratégia de mercado; outros, mero capricho estético. A verdade é menos simples e muito mais divertida. Vital Sousa é quem organiza o pensamento, estrutura projetos, pesquisa, estuda e procura dar coerência às ideias. Tonny Aguiar prefere a narrativa, as crônicas, o romance, os personagens que caminham entre o abs...
A Homenagem à Cícera Bezerra, que integra o Livro Ventos do Catimbau: o Ser'tão Forte, de Tonny Aguiar e Biu Di Braga, que será a base do material didático para as Palestras e Oficinas do Projeto homônimo que tem como objetivo identificar, qualificar e publicar as novas safras de escritores do Sertão, é, simbolicamente, uma homenagem ao público alvo, à Persona dessa Empreitada, pois Cícera representa uma significativa parcela dos responsáveis pela preservação de uma "Cultura sem Registros", seja pela falta de escolaridade ou pela prática da Oralidade como meio de transmissão de costumes e histórias de sobrevivência, resistência e convívio com o Semiárido.
Cícera Bezerra além de ser um símbolo da mulher sertaneja é uma Educadora Nata dos saberes da terra, transmitindo para as novas gerações aquilo que recebeu dos seus antepassados, através da prática, da lida de enxada na mão. É, essencialmente, representante dos guardiões dos saberes populares que podem garantir a preservação e o desenvolvimento econômico e socioambiental do Vale do Catimbau e do Semiárido.
Os Homenageados no Livro e no Projeto são seis mulheres e um homem que, acima do gênero são pessoas, e com suas condutas e trajetórias merecem o "Reconhecimento". Não, apenas, pela luta de uma vida, mas pela luta de um Povo: é "Reconhecimento" pela luta de Todos; pelos Direitos de Todos ao Respeito e à Existência Pacífica, porque somos todos iguais, mesmo "diferentes"; porque temos uma ancestralidade única como "Seres Humanos"!
O "Reconhecimento" é para "quem levanta a voz" em nome de Todos!
Acredite no que você acreditar, eu acredito na Energia, na Força da Natureza, da qual faço parte, mesmo sem, ainda, entender, completamente, o meu papel no contexto do “Útero Cósmico” do Planeta e com a consciência de que a Terra não é o lugar onde vivo, mas um organismo do qual faço parte, mas isso é outra história que pretendo contar enquanto estiver aqui.
O Sertão é dos fortes,
Alma, corpo e gibão;
Que encaram a sorte
Com força e coração;
Luta, não esbraveja,
Como a Sertaneja,
Que se fez dedicação.
É dela, nesta ata,
Toda nossa louvação;
Que da sorte ingrata
Fez a sua profissão;
E fez das suas dores
O seu jardim de flores,
Com as suas próprias mãos.
Com suave perfume,
Regou sua plantação;
Com seu próprio lume,
Brilhou na escuridão;
E tudo que iluminou
Como estrela brilhou
Na sua constelação.
A homenagem a Ciça (Cícera Bezerra da Silva) é uma homenagem extensiva a todas as mulheres sertanejas, por representarem o poder de criação e sobrevivência. Cada uma com seus sentimentos e crenças, todas com o mesmo espírito guerreiro; cada uma com seus saberes, todas com a mesma força da natureza; cada uma com seus afazeres, todas com a mesma missão de perpetuar a humanidade.
Natural de Buíque, PE, nascida e crescida no Vale do Catimbau, Cícera Bezerra da Silva, mais conhecida como Ciça, representa de forma inquestionável a mulher Sertaneja: forte por natureza e resiliente por imposição do espírito bravio da gente do Sertão.
Sem medo de ser repetitivo, mas consciente de que narrar a sua trajetória é a melhor forma de reconhecimento da valentia dela e de todas as mulheres Sertanejas, que desde cedo pegaram no cabo da enxada, fazendo da sobrevivência profissão.
Ciça, desde os nove anos, no ofício do roçado, sem acesso à educação formal, aprendeu o que tem de melhor: o que a vida ensina. O espírito bravio logo cedo falou mais alto e aos dezessete anos partiu da casa dos seus pais para construir sua própria família, continuando na lida da roça para garantir a sobrevivência. Fez-se mãe aos dezenove anos e com a força das suas mãos criou seus sete filhos. Viúva aos quarenta e sete, continuou garantindo sozinha o sustento e a educação da família. Atualmente, na maturidade, mantém o espírito indomável na defesa e educação dos filhos, de certa forma, realizando através deles os seus sonhos.
Biu Di Braga
CoAutor
Imagens: Acervo Particular dos Homenageados
