Até certo ponto de sua produção, Wirveng Natham construiu uma trajetória marcada pela representação da presença. Seus personagens e paisagens afirmam identidades e revelam vínculos com a cultura e a natureza. Em A Taça , entretanto, o jovem e emergente artista realiza um movimento silencioso, porém decisivo: substitui a presença pela ausência como elemento estruturador da obra. A mudança é perceptível desde a composição. Sobre um fundo negro absoluto, poucos traços são suficientes para delinear uma taça quase transparente. Não há referências que conduzam o olhar. Tudo o que permanece é um objeto reduzido à sua essência, envolvido por um vazio que deixa de ser simples espaço negativo para assumir protagonismo. A pintura passa a existir menos pelo que mostra do que pelo que deliberadamente escolhe não mostrar. Essa inversão é reforçada pela reflexão proposta pelo próprio artista. Em vez de recorrer ao conhecido dilema entre o recipiente "meio cheio" e "meio vazio", ...
Uma tarde inteira e parte de uma noite vivendo uma cena clássica de desenho animado: o personagem diante de um dilema, num interlóquio com o um anjinho e um diabinho que, acaloradamente, aconselham atitudes a serem tomadas. No caso, eu, depois de um encontro casual com uma – por questões de segurança nacional chamarei de Anjo – pessoa das minhas relações eventuais – que bem poderia chamar de Diabinho – em pleno horário de almoço num restaurante, estando me refastelando com uma generosa porção de macaxeira com galinha guisada. Meu dilema é resolvido no final da noite, escutando, insistentemente, os chamados de Morfeu, quando num sobressalto lembro uma frase de Lacan: “A verdade só pode ser dita nas malhas da ficção”. Salvo pelo gongo, deixo de lado o diabinho e o anjinho e me entrego à imaginação de uma crônica para dizer “verdades”.
Um encontro casual que conectou minha mente com uma rede de sinapses neuronais, disparando uma avalanche de memórias midiáticas com a figura do Anjo.
Acostumado a vê-la em eventos e através das telas dos dispositivos eletrônicos, sempre com a sua melhor versão Executiva-Artista Multimídia–Feminista-Engajada, encontrá-la “travestida” de um ser normal como eu, mero mortal, foi uma agradável surpresa: um desses momentos ao acaso de pura alegria, como um encontro de um fã com seu artista favorito. O momento me faz lembrar uma frase atribuída a Guimarães Rosa que diz que "a alegria só ocorre em raros momentos de distração". Logo eu, com a agenda controlada, calculando a conexão de variáveis e administrando o tempo de forma cartesiana, me deparo com a ideia de que a alegria e até mesmo a felicidade – momentos felizes – são encontradas em momentos ao acaso, sem planejamento: momentos de pura distração.
Memórias à parte, para não derramar uma avalanche de verdades que envolveriam terceiros, a vontade era de levantar e dar-lhe um abraço, para poder examinar suas supostas asas, mas permaneci sentado, tergiversando com uma conversa meio sem pé nem cabeça, e me sentindo como uma centopeia - cheio de pernas – não levantei para não dar o vexame de tropeçar e cair em seus braços.
Por dentro, eu gargalhava com os meus eus, mastigando lentamente a macaxeira com galinha guisada, para extrair todo o sabor desta iguaria, enquanto decantava um mar de memórias para flutuar num céu de estrelas rabiscadas com giz. No entorno, a vida seguia o seu rumo – como sempre faz – alheia aos pensamentos de quem vive.
Desperto dos meus pensamentos para uma despedida formal com perspectiva de um eventual futuro encontro. No próximo eu estarei preparado ou não!
Vital Sousa
O Ponto dos Contos e Crônicas Improváveis - No Prelo. Quatro Editora.
