Não deixei o Dia Nacional do Escritor passar em branco... Talvez apenas o tenha deixado passar em preto e branco. Afinal, a folha de photobooth que acompanha esta publicação não é um exercício de vaidade, tampouco uma tentativa de provar que um escritor pode fazer dezesseis caretas diferentes diante de uma câmera. É, antes de tudo, uma pequena confissão. Ontem, 25 de julho, celebramos o Dia Nacional do Escritor . Hoje, resolvi comemorar a data mostrando um pouco daquilo que raramente aparece nas fotografias de divulgação de um livro: a estranha multidão que habita um único autor. Durante muito tempo me perguntaram por que assino obras com nomes diferentes. Alguns imaginam estratégia de mercado; outros, mero capricho estético. A verdade é menos simples e muito mais divertida. Vital Sousa é quem organiza o pensamento, estrutura projetos, pesquisa, estuda e procura dar coerência às ideias. Tonny Aguiar prefere a narrativa, as crônicas, o romance, os personagens que caminham entre o abs...
Uma tarde inteira e parte de uma noite vivendo uma cena clássica de desenho animado: o personagem diante de um dilema, num interlóquio com o um anjinho e um diabinho que, acaloradamente, aconselham atitudes a serem tomadas. No caso, eu, depois de um encontro casual com uma – por questões de segurança nacional chamarei de Anjo – pessoa das minhas relações eventuais – que bem poderia chamar de Diabinho – em pleno horário de almoço num restaurante, estando me refastelando com uma generosa porção de macaxeira com galinha guisada. Meu dilema é resolvido no final da noite, escutando, insistentemente, os chamados de Morfeu, quando num sobressalto lembro uma frase de Lacan: “A verdade só pode ser dita nas malhas da ficção”. Salvo pelo gongo, deixo de lado o diabinho e o anjinho e me entrego à imaginação de uma crônica para dizer “verdades”.
Um encontro casual que conectou minha mente com uma rede de sinapses neuronais, disparando uma avalanche de memórias midiáticas com a figura do Anjo.
Acostumado a vê-la em eventos e através das telas dos dispositivos eletrônicos, sempre com a sua melhor versão Executiva-Artista Multimídia–Feminista-Engajada, encontrá-la “travestida” de um ser normal como eu, mero mortal, foi uma agradável surpresa: um desses momentos ao acaso de pura alegria, como um encontro de um fã com seu artista favorito. O momento me faz lembrar uma frase atribuída a Guimarães Rosa que diz que "a alegria só ocorre em raros momentos de distração". Logo eu, com a agenda controlada, calculando a conexão de variáveis e administrando o tempo de forma cartesiana, me deparo com a ideia de que a alegria e até mesmo a felicidade – momentos felizes – são encontradas em momentos ao acaso, sem planejamento: momentos de pura distração.
Memórias à parte, para não derramar uma avalanche de verdades que envolveriam terceiros, a vontade era de levantar e dar-lhe um abraço, para poder examinar suas supostas asas, mas permaneci sentado, tergiversando com uma conversa meio sem pé nem cabeça, e me sentindo como uma centopeia - cheio de pernas – não levantei para não dar o vexame de tropeçar e cair em seus braços.
Por dentro, eu gargalhava com os meus eus, mastigando lentamente a macaxeira com galinha guisada, para extrair todo o sabor desta iguaria, enquanto decantava um mar de memórias para flutuar num céu de estrelas rabiscadas com giz. No entorno, a vida seguia o seu rumo – como sempre faz – alheia aos pensamentos de quem vive.
Desperto dos meus pensamentos para uma despedida formal com perspectiva de um eventual futuro encontro. No próximo eu estarei preparado ou não!
Vital Sousa
O Ponto dos Contos e Crônicas Improváveis - No Prelo. Quatro Editora.
