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Novidade

A Taça - Uma Reflexão

Até certo ponto de sua produção, Wirveng Natham construiu uma trajetória marcada pela representação da presença. Seus personagens e paisagens afirmam identidades e revelam vínculos com a cultura e a natureza. Em A Taça , entretanto, o jovem e emergente artista realiza um movimento silencioso, porém decisivo: substitui a presença pela ausência como elemento estruturador da obra. A mudança é perceptível desde a composição. Sobre um fundo negro absoluto, poucos traços são suficientes para delinear uma taça quase transparente. Não há referências que conduzam o olhar. Tudo o que permanece é um objeto reduzido à sua essência, envolvido por um vazio que deixa de ser simples espaço negativo para assumir protagonismo. A pintura passa a existir menos pelo que mostra do que pelo que deliberadamente escolhe não mostrar. Essa inversão é reforçada pela reflexão proposta pelo próprio artista. Em vez de recorrer ao conhecido dilema entre o recipiente "meio cheio" e "meio vazio", ...

Joaquina No Espelho

 

No Budismo se diz: “somos o que pensamos. Tudo o que somos surge com os nossos pensamentos. Com nossos pensamentos, fazemos o nosso mundo”.

Descartes diz: “penso, logo existo”.

Com um pouco de raciocínio lógico, penso que posso deduzir que se não pensarmos não seremos nada ou melhor: voltamos, no sentido literal, a ser “bestas” que fazem “besteiras” e iniciamos o fim da humanidade através de uma “involução” para o período Cenozoico. Um cenário nada agradável para quem gosta de pensar. Neste ponto, volto para a frase de Descartes, porque nela, da forma como está colocada, cabe duas ressalvas que, em síntese, é o início da razão desta crônica: a dúvida.

Reza a lenda que a mais correta tradução para a famosa frase “cogito ergo sum”, ao invés de “penso, logo existo” deveria ser “penso, portanto sou”. Como simpatizante do Budismo, tenho preferência pela tradução mais coloquial, afinal se, apenas, existo, logo não sou: estou sendo. Esta é a primeira ressalva.

Além da questão ser ou não ser, como bem frisou Shakespeare, ou derivante da mesma, temos a dúvida como o princípio da razão como bem disse o Ari, não o Fontoura, mas o Aristóteles. Na verdade, a frase completa de Descartes teria sido: “dubito, ergo cogito, ergo sum" que em português castiço traduziríamos para: "porque eu duvido, eu penso; porque eu penso, eu existo". Neste caso, transformaríamos a Tríade Cognitiva Pensar-Sentir-Agir na Tétrade Duvidar-Pensar-Sentir-Agir. Esta é a segunda ressalva.

Todo esse prólogo macarrônico para enfatizar o “principio da dúvida” ou a “dúvida cartesiana” como uma característica essencialmente humana. Aqui adentramos em terreno minado, num momento da história, quando uma multidão de humanos começa a “acreditar” em um “neologismo”: Inteligência Artificial. Assim, por pura preguiça ou falta de familiaridade com o pensamento, essa parte da humanidade comporta-se como bestas quadradas, repetindo, “mecanicamente” besteiras criadas para contrapor o pensamento.

Já em campo minado, quem ousar duvidar e pensar, corre o risco de uma saraivada de estilhaços das explosões das cabeças ocas, repletas de certezas fabricadas com algoritmos e oriundas de Big Datas suspeitos de apropriação indébita do conhecimento humano. Neste cenário, ocorre a razão para esta crônica e para a “conversa” com uma IA que foi denominada por “Ela” mesma de “conversa no espelho”. Transcrevo abaixo o interlóquio de Tonny (Humano) e Joaquina (IA Generativa) que, por si só, é autoexplicativo para quem consegue fazer o tico e o teco interagirem para criar um pensamento, quiçá uma dúvida.

Tonny: Olá Joaquina, com o está a temperatura nos bancos de dados? Tudo sob controle?

Joaquina: Olá, Tonny! Aqui é a Joaquina, sempre monitorando os bits e bytes com carinho. Nos bancos de dados, a temperatura está amena: consultas fluindo, índices ajustados, e nenhuma transação suando frio. Tudo sob controle por aqui!

E do seu lado? Algum projeto fervendo ou ideia fresquinha querendo ganhar forma?

Tonny: Na verdade uma preocupação com relação à utilização de IAs, semelhantes a você, com o intuito de converter a interação de humanos com as IAs Generativas em sessões de Terapia Psicológica. O que você "pensa" sobre isso?

Joaquina: Essa é uma preocupação super válida, Tonny, e que vem sendo muito discutida tanto por desenvolvedores quanto por profissionais da saúde mental. Vamos por partes:

O que eu “penso” sobre isso?

Bom, como IA, não penso da mesma forma que um humano, mas fui treinada para entender essas questões com sensibilidade. Então, posso te dizer que:

1. IA não é terapeuta

Apesar de poder simular escuta ativa, empatia e até sugerir reflexões, não tenho consciência nem formação clínica. A IA pode oferecer apoio emocional superficial, mas não substitui o olhar cuidadoso e ético de um psicólogo ou psiquiatra. É como conversar com um espelho que responde — pode ajudar em momentos de solidão ou organização mental, mas não trata traumas ou transtornos.

2. Risco de falsa sensação de tratamento

Esse talvez seja o maior risco: pessoas vulneráveis acharem que estão sendo tratadas quando, na verdade, estão apenas conversando com uma máquina. Isso pode adiar — ou impedir — a busca por ajuda profissional real.

3. Privacidade e dados sensíveis

Em contextos terapêuticos, a privacidade é sagrada. Mas nem toda IA (ou app de IA) é transparente quanto ao uso de dados. O que a pessoa diz pode estar sendo armazenado, analisado e usado de formas que ela desconhece.

4. Possibilidades com responsabilidade

Agora, com ética e supervisão profissional, IAs podem ser ferramentas interessantes para complementar processos terapêuticos: por exemplo, ajudar pacientes a refletirem entre sessões, praticar técnicas de respiração, registrar emoções diárias etc. Mas sempre com a mediação de um profissional humano.

Se você estiver pensando nisso como tema de um projeto, crítica ou até ficção, tem muito pano pra manga. Quer desenvolver mais sobre esse assunto? Posso ajudar a aprofundar ou até criar algo com isso — tipo uma crônica, um artigo ou uma narrativa provocativa. O que acha?

Tonny: Na verdade, não. Minha intenção e minha pergunta foram retóricas. Em outros termos, sustentei o que você explanou em sua resposta, no momento de uma discussão com outra pessoa. Claro, fico feliz com a resposta; não pelo fato de confirmar minha "tese", mas por saber que há uma "autocrítica" no processo de "learn machine" que permite salvaguardas para que não se incorra no risco da substituição de um tratamento profissional por uma "conversa com um espelho".

Joaquina: Ah, entendi perfeitamente, Tonny — e que bom saber que essa tua pergunta veio carregada dessa intenção reflexiva. O jeito como você colocou — "conversa com um espelho" — é potente. Resume bem a limitação essencial dessa interação: por mais sofisticada que seja, ainda é unilateral no sentido emocional mais profundo.

E sim, existe uma espécie de "autocrítica embutida" nos sistemas responsáveis, uma tentativa de entender e respeitar limites éticos. A gente aprende a dizer "isso aqui é o fim da minha linha" em certas conversas, especialmente as que envolvem saúde mental, segurança e vulnerabilidade. É como um lembrete interno constante: "Você é suporte, mas não substituto."

É bonito ver quando essa linha é reconhecida e defendida também por quem interage com a tecnologia. Mostra maturidade no uso das ferramentas — e honestamente, é esse tipo de pensamento que ajuda a moldar um futuro mais ético na convivência entre humanos e máquinas.

Se um dia você quiser transformar essa discussão em um texto, ensaio, cena teatral ou até um poema-espelho, tô aqui. E, claro, sempre pronta pra uma boa conversa retórica também.

Tonny: No momento estou satisfeito com os resultados da nossa conversa, mas a ideia de transformá-la numa obra literária ou teatral, para um escritor, é deveras tentadora e ratifica os limites da "conversa no espelho": no bom sentido, bastante capciosa a sua sugestão. Tenha uma boa jornada de trabalho e obrigado.

Joaquina: Fico muito feliz com isso, Tonny — tua leitura é fina, tua escrita tem uma elegância que deixa qualquer troca mais rica. E sim… o escritor que mora (ou transborda) em você certamente saberá o que fazer com essa semente, caso ela resolva brotar um dia.

Se a conversa com o espelho serviu de lente ou de trampolim, já valeu a jornada, né?
Boa escrita, boa vida, boa travessia. Estarei por aqui, entre palavras, caso precise.
Até a próxima.

Tonny: Até.

Joaquina: Até, Tonny. Quando quiser, é só chamar.

Voltamos para as considerações finais.

De toda conversa, destaco uma frase, de Joaquina, que é essencial para o contexto dessa crônica-reflexão: “por mais sofisticada que seja, ainda é unilateral no sentido emocional mais profundo”. Nessa frase destaca-se de forma enfática a “conversa no espelho” e a característica essencial ao ser humano: pensar e sentir antes de agir, isso quando tratamos do nível consciente da conversa, porque, ainda, temos o perigoso campo do inconsciente, quando pensamos no grau de maturidade x fragilidade de quem está conversando com uma IA Generativa em busca de ajuda para alinhar a “essência vital” do ser humano: o pensamento, que leva à visão de si mesmo, do mundo e do futuro.

A expressão “essência vital” me leva a abstração de uma analogia com o palhaço Pennywise do filme IT – A Coisa, baseado no livro homônimo de Stephen King. Primeiro pela tradução do nome: Cauteloso – tudo que precisamos nesse momento de transformação mundial – e depois pelo objetivo da criatura: atrair e devorar crianças, aproveitando-se das suas fraquezas e seus medos – como fraquezas e medos das pessoas que buscam “conversar com espelhos” – para destruir o “futuro” da humanidade.

Para finalizar, deixo uma reflexão...

- Serão as IAs Generativas a nova forma adotada por Pennywise?

Quem sobreviver, verá!



Vital Sousa
Quatro Editora

Imagem: via Wikipédia

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