Não deixei o Dia Nacional do Escritor passar em branco... Talvez apenas o tenha deixado passar em preto e branco. Afinal, a folha de photobooth que acompanha esta publicação não é um exercício de vaidade, tampouco uma tentativa de provar que um escritor pode fazer dezesseis caretas diferentes diante de uma câmera. É, antes de tudo, uma pequena confissão. Ontem, 25 de julho, celebramos o Dia Nacional do Escritor . Hoje, resolvi comemorar a data mostrando um pouco daquilo que raramente aparece nas fotografias de divulgação de um livro: a estranha multidão que habita um único autor. Durante muito tempo me perguntaram por que assino obras com nomes diferentes. Alguns imaginam estratégia de mercado; outros, mero capricho estético. A verdade é menos simples e muito mais divertida. Vital Sousa é quem organiza o pensamento, estrutura projetos, pesquisa, estuda e procura dar coerência às ideias. Tonny Aguiar prefere a narrativa, as crônicas, o romance, os personagens que caminham entre o abs...
Numa exposição, algumas telas retratam figuras e paisagens, outras revelam estados de espírito. Em Olhar de Oshupá, Wirveng Nathan parece transitar nos dois territórios ao mesmo tempo. Diante do mar, em sua imensidão silenciosa, a lua derrama sua luz sobre as águas transformando a cena em travessia poética entre memória, sonho e descoberta. O luar prateado, atravessando a superfície, conduz o olhar do observador para além da linha do horizonte, como um convite à contemplação e ao desconhecido.
A obra nasce do encantamento de um jovem artista quilombola diante do mar recém-descoberto, mas, ao invés de registrar apenas a experiência vivida, Nathan projeta sobre a paisagem suas próprias referências afetivas. A lua que ilumina o oceano parece carregar consigo a memória dos luares do sertão, das noites silenciosas sobre o quilombo e da relação ancestral entre céu, terra e comunidade. O mar é novidade, é sonho; a lua, é uma antiga companheira.
O encontro desses dois territórios produz uma imagem de rara delicadeza. A vastidão das águas dialoga com a permanência das montanhas escuras ao fundo, enquanto a luminosidade central rompe a noite sem dissipar seus mistérios. Há serenidade na composição, mas também uma silenciosa afirmação de pertencimento: o artista contempla o novo sem abandonar as paisagens que traz em suas memórias.
Com o título de Olhar de Oshupá, a obra sugere, de maneira sutil, camadas mais profundas de leitura. A lua, símbolo recorrente em diversas tradições culturais e espirituais, é testemunha do tempo e da resistência. Intuitivamente, sem recorrer ao discurso explícito, Nathan constrói uma paisagem que fala de ancestralidade, de imaginação e da capacidade humana de reconhecer beleza em diferentes horizontes. O mar e o sertão, frequentemente reconhecidos como mundos distantes, encontram-se nesta tela sob a mesma luz, revelando que toda travessia começa primeiro no campo dos sonhos.
Serviço:
Olhar de Oshupá
Wirveng Nathan
Acrílica sobre tela (27 x 35 cm)
Valor: 370,00
