Não deixei o Dia Nacional do Escritor passar em branco... Talvez apenas o tenha deixado passar em preto e branco. Afinal, a folha de photobooth que acompanha esta publicação não é um exercício de vaidade, tampouco uma tentativa de provar que um escritor pode fazer dezesseis caretas diferentes diante de uma câmera. É, antes de tudo, uma pequena confissão. Ontem, 25 de julho, celebramos o Dia Nacional do Escritor . Hoje, resolvi comemorar a data mostrando um pouco daquilo que raramente aparece nas fotografias de divulgação de um livro: a estranha multidão que habita um único autor. Durante muito tempo me perguntaram por que assino obras com nomes diferentes. Alguns imaginam estratégia de mercado; outros, mero capricho estético. A verdade é menos simples e muito mais divertida. Vital Sousa é quem organiza o pensamento, estrutura projetos, pesquisa, estuda e procura dar coerência às ideias. Tonny Aguiar prefere a narrativa, as crônicas, o romance, os personagens que caminham entre o abs...
Até certo ponto de sua produção, Wirveng Natham construiu uma trajetória marcada pela representação da presença. Seus personagens e paisagens afirmam identidades e revelam vínculos com a cultura e a natureza. Em A Taça, entretanto, o jovem e emergente artista realiza um movimento silencioso, porém decisivo: substitui a presença pela ausência como elemento estruturador da obra.
A mudança é perceptível desde a composição. Sobre um fundo negro absoluto, poucos traços são suficientes para delinear uma taça quase transparente. Não há referências que conduzam o olhar. Tudo o que permanece é um objeto reduzido à sua essência, envolvido por um vazio que deixa de ser simples espaço negativo para assumir protagonismo. A pintura passa a existir menos pelo que mostra do que pelo que deliberadamente escolhe não mostrar.
Essa inversão é reforçada pela reflexão proposta pelo próprio artista. Em vez de recorrer ao conhecido dilema entre o recipiente "meio cheio" e "meio vazio", Wirveng elimina a dualidade ao apresentar uma taça completamente vazia. A pergunta já não diz respeito ao grau de esperança ou de pessimismo do observador. Ela desloca a reflexão para um campo mais profundo: por que a taça está vazia? O que esteve ali? O que ainda poderá ocupá-la? O vazio deixa de representar carência e transforma-se em espaço de expectativa, memória e possibilidade.
A escolha da taça amplia ainda mais essa construção simbólica. Tradicionalmente associada à celebração, ao encontro, à partilha e aos ritos de passagem, ela surge desprovida de seu conteúdo, preservando apenas delicados reflexos azulados que sugerem a permanência da luz ou da lembrança. A obra recusa o pessimismo absoluto. Seu silêncio não anuncia o fim, mas a iminência de algo que ainda pode acontecer.
Sob o olhar da curadoria, A Taça ocupa um lugar singular dentro da produção de Wirveng Natham. Mais do que uma obra isolada, ela sinaliza um ponto de inflexão em sua pesquisa artística. Ao reduzir a forma ao essencial e confiar ao vazio a responsabilidade de construir significado, o artista aproxima-se de uma linguagem em que a sugestão passa a ter mais força que a descrição. É como se o gesto de pintar deixasse, gradualmente, de representar objetos para representar pensamentos.
Essa transição prenuncia novos caminhos. A síntese formal, a valorização do espaço vazio e a abertura interpretativa revelam um artista que começa a ultrapassar os limites da figuração sem abandoná-la completamente. Surge aqui a possibilidade de uma investigação futura em direção a linguagens mais impressionistas e abstratas, nas quais a emoção e a percepção poderão ocupar o lugar antes reservado à narrativa. A Taça, portanto, não representa apenas uma pausa dentro da exposição; representa o instante em que uma linguagem amadurece e permite vislumbrar o horizonte de sua própria transformação.
Serviço:
A Taça
Wirveng Nathan
Acrílica sobre tela (30 x 30 cm)
Valor: 410,00
