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Novidade

A Taça - Uma Reflexão

Até certo ponto de sua produção, Wirveng Natham construiu uma trajetória marcada pela representação da presença. Seus personagens e paisagens afirmam identidades e revelam vínculos com a cultura e a natureza. Em A Taça , entretanto, o jovem e emergente artista realiza um movimento silencioso, porém decisivo: substitui a presença pela ausência como elemento estruturador da obra. A mudança é perceptível desde a composição. Sobre um fundo negro absoluto, poucos traços são suficientes para delinear uma taça quase transparente. Não há referências que conduzam o olhar. Tudo o que permanece é um objeto reduzido à sua essência, envolvido por um vazio que deixa de ser simples espaço negativo para assumir protagonismo. A pintura passa a existir menos pelo que mostra do que pelo que deliberadamente escolhe não mostrar. Essa inversão é reforçada pela reflexão proposta pelo próprio artista. Em vez de recorrer ao conhecido dilema entre o recipiente "meio cheio" e "meio vazio", ...

Vitalogia - Não sou um.


Vitalogia não é um livro que se lê para entender. É um livro que se atravessa.


Apresentação

Por Tonny Aguiar

Não sou um. Reconheço a indefinição do que sou.

Aqui, a escrita não busca a unidade — celebra a fratura. A voz que fala não se pretende inteira, porque sabe: o humano é múltiplo, contraditório, transitório. Vitalogia nasce do reconhecimento de que um só nome não basta quando a vida insiste em se desdobrar em muitos.

Entre poemas, crônicas e fragmentos de pensamento, esta obra constrói uma cartografia íntima onde razão, emoção, sonho e canto coexistem em tensão permanente. Cada texto é um gesto de consciência: não para fixar identidades, mas para permitir que elas se movam. Não para explicar o viver, mas para habitá-lo em sua forma mais honesta — impermanente, sensível, indomesticável.

Assinada por uma Quadra de vozes, Vitalogia assume a multiplicidade como ética e estética. Vital Sousa pensa. Tonny Aguiar sente. Vitor Sales sonha. Biu Di Braga canta. Não como heterônimos que ocultam um autor, mas como expressões legítimas de uma mesma experiência humana que se recusa a caber em um único contorno. Aqui, os pseudônimos não são máscaras: são instrumentos de revelação.

A obra transita entre o rigor cartesiano e a vertigem poética, entre o sertão e o mar, entre a lucidez e a loucura assumida como método de sobrevivência. O beija-flor que atravessa suas páginas não é símbolo decorativo: é metáfora de passagem, de segunda chance, de transformação contínua. Viver, neste livro, é aceitar o voo mesmo quando o chão ainda seduz.

Vitalogia não promete respostas. Propõe presença.

Não oferece certezas. Convida ao reconhecimento.

Porque, no fim, viver não é sustentar uma identidade fixa — é ter coragem de atravessar, com poesia, todas as versões possíveis de si.

Fiquem com alguns trechos de poemas da Quadra de Va(le)tes e façam as suas escolhas, inclusive de comprar ou não comprar esta obra.

De todas as manias eu sou o avesso:

A dúvida cartesiana das nossas loucuras,

Os muros erguidos com o frágil gesso

E o punhal que atravessa as armaduras;

    - Vital Sousa


Eu e minha mania de viver... Vital despertar;

Eu e minhas pretensões de ser... Imortal;

Retirar, do veneno sorvido, uma forma de amar,

Que dilacere, como se deseja, sem ser letal.


    - Tonny Aguiar

Até onde posso vislumbrar,
Pelo que já foi o que será vivido?
No despertar do novo, renascido,
Encontrar outra forma de olhar?


    - Vitor Sales


Teimoso? Não! Arrochado...

Pernambucano é assim:

Justo, mas é invocado,

No tratado não tem pantim;

Quando está arretado,

Faz do inferno um jardim.

 

O “Leão do Norte” é assim,

Se não for, é falsificado.


    - Biu Di Braga

Texto Contracapa - Edição Impressa

Por Vital Sousa

Vitalogia não é um livro sobre identidade. É um livro sobre aquilo que escapa a ela. Aqui, a vida não se organiza em um nome único nem se submete à ilusão de permanência. Ela se fragmenta, se contradiz, se reinventa e, ainda assim, permanece viva.

Entre a razão que analisa, a emoção que transborda, o sonho que insiste e o canto livre do menestrel, a obra reconhece aquilo que muitos temem admitir: não somos um. Vitalogia nasce do encontro entre vozes — pseudônimos que não ocultam, mas revelam camadas de um mesmo viver. Cada poema se apresenta como um gesto de consciência, onde sentir vem antes de definir, viver antecede qualquer tentativa de fixação e reconhecer se impõe como ato mais honesto do que simplesmente ser.

Este não é um livro em busca de respostas estáveis. Vitalogia propõe, antes, uma ética da impermanência: a coragem de aceitar a própria indefinição como forma legítima de existir. Porque viver, aqui, não significa sustentar certezas, mas habitar intensamente a melhor versão transitória de si.

Prefácio

Por Severino dos Reis Di Braga - Biu Di Braga

Por ser o último dos Quatro Va(le)tes, coube-me a tarefa de prefaciar a obra pretendida como o espelho das nossas existências, esclarecendo definitivamente a nossa origem. Assim, considero importante iniciar com uma apresentação do criador dos nossos mundos, autor de todas as histórias.

Vital Antonio Aguiar de Sousa é mais que um escritor — é um criador de mundos. Assina sua obra com diversos nomes, cada um carregando um aspecto de sua identidade artística: Tonny Aguiar, o contador de histórias que navega entre a memória e a ficção; Vitor Sales, o poeta essencial; Biu Di Braga, o poeta do sertão encantado e o próprio... Vital Sousa, o articulador de ideias, projetos e afetos: o verdadeiro fingidor.

Natural do semiárido nordestino, Vital é um contador de histórias movido por raízes profundas e sonhos altos. Seu livro Lindomar – O Menino que Virou Mar, um conto de realismo fantástico traduzido para o cordel, é prova do seu talento em transformar a aridez do sertão em oceano de possibilidades – metáfora constante da sua escrita. Este livro marca o meu nascimento com a missão gloriosa de traduzir para o cordel as palavras assinadas por Tonny Aguiar – a quem Vital entregou a autoria do conto. Mais tarde, por reconhecimento ou divina graça do “Mestre das Marionetes”, tornei-me o herdeiro da poesia da Trinca de Va(le)tes, que após a infortuna e prematura morte de Vitor Sales, decidiram migrar os seus talentos para a prosa, em causos, crônicas, contos, novelas e romances.

Criador de personagens complexos, como Arista Marinho, protagonista de uma trilogia de romance psicológico com viés de ficção científica, Vital explora os limites da memória, do amor e da manipulação da realidade. Entre o desaparecimento de Arista, nos confins do fim do mundo, os silêncios do beija-flor e o canto da sereia, o autor investiga os abismos da mente humana e os mistérios que habitam o seu, o nosso, coração. Inunda nossa vida com essa verve em prosa e poesia que nos dá vida e nos representa como criadores e criaturas, inventores das nossas histórias.

Além da literatura, Vital é também gestor cultural, roteirista, palestrante e educador itinerante, com atuação voltada para projetos de incentivo à leitura e valorização das culturas contemporâneas. É idealizador do projeto Ventos do Catimbau – O Ser’tão Forte, junto à Quatro Editora, que promove a sustentabilidade, o protagonismo sertanejo e a preservação do semiárido, bioma de sua origem e inspiração.

Com a criação da Quatro Editora, firma seu compromisso com os pilares de Traduzir, Transformar e Transcender, utilizando sua experiência para oferecer a novos autores o mesmo solo fértil que nutre sua própria caminhada literária.

Vital escreve com o coração do menino retirante, a mente do homem que resiste e a alma do poeta que crê. Seja em versos ou em prosa, no digital ou no impresso, nos palcos ou nas oficinas, o que ele oferece são sempre sementes para fazer brotar o encantamento pela escrita.

Toda essa verve formal, para mim, é trabalhosa e enfadonha, essa foi a razão da minha criação: traduzir para o cordel, uma linguagem mais acessível e aceitável para os nossos ouvidos, os textos de Tonny Aguiar. Assim, vamos aos versos recontar a história:

Vital Sousa é raiz,
É sertão em movimento,
É quem planta poesia
No mais seco pensamento.
Traz no nome a travessia
De um Bardo em nascimento.

É Vital quando é memória,
É Biu quando vira encanto,
É Tonny pra ser palavra
É Vitor quando é canto.
Tem a pena como espada
E o silêncio como manto.

Fez do “Lindomar” menino
Que virou o mar sonhado,
Fez do sertão um destino
Em verso caboclo e rimado.
Fez do cordel um hino
Com o Catimbau encantado.

Criador de Arista Marinho,
Mulher mistério e paixão,
Desapareceu no tempo,
Num reggae, numa canção...
E Tonny, com seu instinto,
Foi buscar revelação.

Na Quatro Editora firma
Três pilares a iluminar:
Traduzir, Transformar e
Transcender pra libertar.
Oferece a quem escreve
Um lugar pra semear.

É valente entre Va(le)tes,
Companheiro e brincador,
Mistura ciência e alma,
Ficção e o sonhador,
E leva em cada projeto
O sertão dentro da flor.

Com esta apresentação, deixo claro a motivação para o título desta obra, onde misturamos crônica e poesia para esclarecer a heteronímia em detrimento da crença da pretensão de genialidade e da suposta loucura.

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