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Novidade

A Taça - Uma Reflexão

Até certo ponto de sua produção, Wirveng Natham construiu uma trajetória marcada pela representação da presença. Seus personagens e paisagens afirmam identidades e revelam vínculos com a cultura e a natureza. Em A Taça , entretanto, o jovem e emergente artista realiza um movimento silencioso, porém decisivo: substitui a presença pela ausência como elemento estruturador da obra. A mudança é perceptível desde a composição. Sobre um fundo negro absoluto, poucos traços são suficientes para delinear uma taça quase transparente. Não há referências que conduzam o olhar. Tudo o que permanece é um objeto reduzido à sua essência, envolvido por um vazio que deixa de ser simples espaço negativo para assumir protagonismo. A pintura passa a existir menos pelo que mostra do que pelo que deliberadamente escolhe não mostrar. Essa inversão é reforçada pela reflexão proposta pelo próprio artista. Em vez de recorrer ao conhecido dilema entre o recipiente "meio cheio" e "meio vazio", ...

Desencontro Marcado


Mais um Natal; mais uma visita dos Espíritos do Natal. Hoje, deu o ar da graça o Espírito do Natal Passado. Como o velho Scrooge, despertei pensando “Nela”. Há tempos não lembrava desse ponto no espaço-tempo da minha trajetória neste Universo. Um forte indício da veracidade da visita do ilustre espectro.

Visitamos o início dos anos 80, meados de 83 para início de 84 mais precisamente, quando tudo que eu pensava era terminar a faculdade como Economista, fazer uma pós de Finanças e Controladoria e me tornar o novo Roberto Campos - Bob Field para os postulantes - ou um gerente de Banco. Tudo em resposta a um certo Professor João, que ao ouvir que eu sonhava em trabalhar num banco, disse, para deleite dos meus carrascos de bullying: “só se for no banco da praça”. Expressão seguida de estrondosa gargalhada e uma silenciosa promessa para mim mesmo: “vou ser gerente do banco”. O tempo passou e depois de cinco anos trabalhando numa importante instituição financeira, por causa de uma tal de Tecnologia da Informação, descobri que eu podia mais, merecia mais. Mudei de sonho, de emprego, de setor, de faculdade e fui trabalhar na área financeira de uma multinacional, que incluía uma ponte aérea entre a Avenida Abdias de Carvalho, em Recife, e a Avenida Paulista em São Paulo: o emprego dos sonhos de todo yuppie nordestino na década de 80.

Do período de trabalho no banco, mais precisamente dos últimos seis meses, guardo a lembrança que me visitou hoje.

No final do expediente das sextas-feiras, formávamos um paredão de engravatados e seus terninhos, vestidos ou pendurados nos ombros, para assistirmos ao desfile das beldades que saiam do trabalho e passavam no calçadão da Rua Nova, como se fosse uma passarela, em direção às paradas de ônibus da Praça da Independência ou da Avenida Dantas Barreto. Entre elas, “Ela”. Surgia dobrando a esquina da loja A Primavera, e literalmente desfilava pelos 20 e poucos metros que nos separavam, com seu elegante terninho verde ou azul marinho, não recordo precisamente, com seus cabelos castanho-claros na altura dos ombros, seus aparentes olhos claros e, claro, o sorriso mais lindo que todos atestavam jamais terem visto. Só depois de ultrapassar o ponto onde nos reuníamos, girava levemente a cabeça e, sem desmanchar o sorriso, desferia o seu costumeiro olhar fulminante... Em minha direção.

Ato contínuo, a rapaziada, em algazarra, me exortava a segui-la e abordá-la com um convite para um happy hour ou um forrozinho pé de serra no Alto da Sé, em Olinda, nosso programa favorito, e quem sabe um weekend na praia de São José da Coroa Grande, nosso reduto de veraneio, para esclarecer as dúvidas ou confirmar as certezas, que pairavam no imaginário dos meus colegas, sobre o corpo escultural da “moça bonita da praia de Boa Viagem”, como canta o Alceu. Mas nada disso nunca aconteceu.

Depois que ela passava, da algazarra, de eu ser vilipendiado pelos meus colegas de trabalho, pela minha inércia, eu pegava meus livros e cadernos e ia assistir as duas últimas aulas no Campus da UFPE, na Cidade Universitária. Que viagem!

Viajava pensando se algum dia eu a conheceria, quem era, qual o seu nome, o que fazia, qual os seus sonhos e, principalmente, qual o real propósito daqueles olhares. Isso eu nunca soube ou jamais saberei.

Hoje e todas as vezes que lembro desses fatos, me invade uma avalanche de questionamentos: se isso, se aquilo, se aquilo outro tivesse acontecido, como teria acontecido e em que se tornaria, em quem eu me tornaria. Quase um mergulho na minha psique ou no pensamento Heideggeriano do Dasein. Não tenho arrependimentos de todas as minhas versões vividas, mas, mais uma vez, após as lembranças eu penso: ainda tenho vontade de conhecê-la ou, pelo menos, saber o seu nome para dizer em meus pensamentos: “Moça Bonita”, Feliz Natal!!!


Vital Sousa, Quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Imagem: Freepik

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