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Novidade

Eu no Espelho - Dia Nacional do Escritor

Não deixei o Dia Nacional do Escritor passar em branco... Talvez apenas o tenha deixado passar em preto e branco. Afinal, a folha de photobooth que acompanha esta publicação não é um exercício de vaidade, tampouco uma tentativa de provar que um escritor pode fazer dezesseis caretas diferentes diante de uma câmera. É, antes de tudo, uma pequena confissão. Ontem, 25 de julho, celebramos o Dia Nacional do Escritor . Hoje, resolvi comemorar a data mostrando um pouco daquilo que raramente aparece nas fotografias de divulgação de um livro: a estranha multidão que habita um único autor. Durante muito tempo me perguntaram por que assino obras com nomes diferentes. Alguns imaginam estratégia de mercado; outros, mero capricho estético. A verdade é menos simples e muito mais divertida. Vital Sousa é quem organiza o pensamento, estrutura projetos, pesquisa, estuda e procura dar coerência às ideias. Tonny Aguiar prefere a narrativa, as crônicas, o romance, os personagens que caminham entre o abs...

Arista - O Silêncio do Beija-flor: Prefácio


Há momentos na vida de um psicólogo – e, ouso dizer, na vida de qualquer indivíduo que se debruça sobre os mistérios da existência – em que nos deparamos com narrativas que transcendem o mero entretenimento. São obras que nos convidam a uma espécie de diálogo silencioso, uma imersão profunda nas complexidades da mente e do espírito. “Arista, até o fim do mundo”, o primeiro volume desta trilogia de Vital Sousa, foi, para mim, um desses encontros marcantes. Uma leitura que, confesso, reverberou em minhas reflexões profissionais e pessoais, que tive o privilégio de destrinchar em uma crítica literária que, pelo visto, encontrou ressonância no próprio autor, culminando neste honroso convite para prefaciar o segundo ato: “Arista – O Silêncio do Beija-flor”.


Desde o primeiro volume, fui instigada pela maneira como Vital Sousa articula a fragilidade e a potência da memória, a escorregadia natureza da identidade e as sombras da manipulação psíquica. Cadu, o viajante amnésico em busca de si mesmo, tornou-se um espelho de questionamentos universais: quem somos quando as âncoras da lembrança se desfazem? Qual a fronteira entre o real e o fabulado em nossa própria narrativa interna? Essas indagações, tão caras à Neuropsicologia – minha área de especialização – ganham contornos vívidos em sua prosa.

E agora, com “O Silêncio do Beija-flor”, a promessa é de uma jornada ainda mais intrincada, onde as sutilezas da alma parecem dançar com as verdades mais brutais do inconsciente. O título, por si só, é uma pérola de ambiguidade e beleza. O beija-flor, um ser tão pequeno e vibrante, cuja agilidade e delicadeza o tornam quase etéreo, evoca uma existência à beira do visível, uma melodia quase inaudível em sua velocidade. Seu silêncio pode ser a ausência de um canto, o luto por uma voz perdida, ou talvez uma forma de comunicação tão profunda que transcende a audição, acessível apenas àqueles dispostos a ouvir com a alma. No contexto desta narrativa, este silêncio pode ser a metáfora para as verdades suprimidas, os traumas não elaborados, ou a essência mais pura que se esconde sob camadas de artifício e ilusão.

No consultório, testemunhamos diariamente a engenhosidade da mente humana em proteger-se, em reescrever sua própria história para suportar o insuportável. Quantas vezes não nos pegamos questionando a validade de uma lembrança? A memória, essa função cognitiva tão fascinante e complexa, é o alicerce sobre o qual construímos nossa identidade. No entanto, ela não é uma gravação fidedigna, mas uma reconstrução constante, suscetível a vieses, a distorções, a omissões. Em casos extremos, como na amnésia que permeia a experiência de Cadu, ou nas sugestões de manipulação psíquica que pontuam a trama, a obra nos força a confrontar o quão maleável pode ser aquilo que consideramos inabalável em nosso senso de ser.

Este não é, portanto, um livro para ser lido com a superficialidade de quem busca apenas uma trama escapista. É uma obra que exige cumplicidade, paciência e uma disposição genuína para o mergulho. Vital Sousa tece uma rede de eventos e estados mentais que se assemelham, guardadas as devidas proporções, à complexidade de um labirinto cerebral, onde cada sinapse pode ser um caminho, uma falsa pista ou a chave para um insight transformador. A cada página, somos desafiados a decifrar não apenas o enredo, mas a nós mesmos, as ressonâncias que essa ficção profunda e inquietante provoca em nossas próprias paisagens internas.

Em um mundo onde a saúde mental ganha, felizmente, cada vez mais centralidade no debate público, narrativas como esta são de grande valor. Elas nos permitem explorar, de maneira segura e mediada pela arte, as zonas cinzentas da mente humana: o medo, a paranoia, a busca por controle, a resiliência diante da adversidade e a incessante procura por sentido. A obra de Sousa não oferece respostas prontas, nem pretende ser um manual de desenvolvimento pessoal. Pelo contrário, ele estimula o questionamento, convida à reflexão sobre o que é “normal” ou “anormal”, e como a percepção da realidade pode ser drasticamente diferente para cada indivíduo, dependendo de suas vivências, de seus traumas e, crucialmente, de suas memórias.

Minha experiência como neuropsicóloga me ensinou que a mente humana é um universo em constante expansão, dotado de uma capacidade assombrosa de adaptação e ressignificação. Contudo, essa plasticidade, essa habilidade de reconstruir, pode ser tanto uma bênção quanto uma maldição, especialmente quando operada por forças externas ou internas que visam o controle. “Arista – O Silêncio do Beija-flor” explora exatamente essa dualidade, a dança perigosa entre a autonomia da consciência e as forças que tentam moldá-la.

O autor, com a sensibilidade de um observador perspicaz, não se limita a contar uma história; ele a vive através de seus personagens, e nos convida a vivê-la com eles. A tensão entre o que é “lembrado” e o que é “real” torna-se quase palpável, e o leitor se vê impelido a discernir, junto com Cadu, qual a verdade que reside por trás do véu das aparências. É um convite à escuta atenta, não apenas dos diálogos e da trama, mas dos próprios silêncios, das entrelinhas, das omissões que, muitas vezes, guardam as revelações mais perturbadoras.

Esteja avisado: este não é um romance que se fecha em si mesmo; é um convite a revisitar a si mesmo, em espelhos por vezes desconfortáveis, em paisagens internas que talvez você não soubesse que existiam. A trilogia Arista não busca apenas entreter, mas provocar um movimento interno, uma desconstrução de certezas. E, talvez, a verdadeira magia da obra resida precisamente nessa capacidade de nos confrontar com a nossa própria capacidade de ressignificação e, por que não, de reinventar nossa própria narrativa.

Que a leitura de “Arista – O Silêncio do Beija-flor” seja para você, caro leitor, um catalisador de insights e uma jornada tão enriquecedora quanto tem sido para mim.

Que esta leitura seja para você um voo tão profundo e revelador quanto o próprio silêncio do beija-flor.


Dalila Dourado
Psicóloga, Neuropsicóloga, 
Especialista em Saúde Mental, Mestre em Psicologia.

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