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Novidade

A Taça - Uma Reflexão

Até certo ponto de sua produção, Wirveng Natham construiu uma trajetória marcada pela representação da presença. Seus personagens e paisagens afirmam identidades e revelam vínculos com a cultura e a natureza. Em A Taça , entretanto, o jovem e emergente artista realiza um movimento silencioso, porém decisivo: substitui a presença pela ausência como elemento estruturador da obra. A mudança é perceptível desde a composição. Sobre um fundo negro absoluto, poucos traços são suficientes para delinear uma taça quase transparente. Não há referências que conduzam o olhar. Tudo o que permanece é um objeto reduzido à sua essência, envolvido por um vazio que deixa de ser simples espaço negativo para assumir protagonismo. A pintura passa a existir menos pelo que mostra do que pelo que deliberadamente escolhe não mostrar. Essa inversão é reforçada pela reflexão proposta pelo próprio artista. Em vez de recorrer ao conhecido dilema entre o recipiente "meio cheio" e "meio vazio", ...

Arista - O Silêncio do Beija-flor: Prefácio


Há momentos na vida de um psicólogo – e, ouso dizer, na vida de qualquer indivíduo que se debruça sobre os mistérios da existência – em que nos deparamos com narrativas que transcendem o mero entretenimento. São obras que nos convidam a uma espécie de diálogo silencioso, uma imersão profunda nas complexidades da mente e do espírito. “Arista, até o fim do mundo”, o primeiro volume desta trilogia de Vital Sousa, foi, para mim, um desses encontros marcantes. Uma leitura que, confesso, reverberou em minhas reflexões profissionais e pessoais, que tive o privilégio de destrinchar em uma crítica literária que, pelo visto, encontrou ressonância no próprio autor, culminando neste honroso convite para prefaciar o segundo ato: “Arista – O Silêncio do Beija-flor”.


Desde o primeiro volume, fui instigada pela maneira como Vital Sousa articula a fragilidade e a potência da memória, a escorregadia natureza da identidade e as sombras da manipulação psíquica. Cadu, o viajante amnésico em busca de si mesmo, tornou-se um espelho de questionamentos universais: quem somos quando as âncoras da lembrança se desfazem? Qual a fronteira entre o real e o fabulado em nossa própria narrativa interna? Essas indagações, tão caras à Neuropsicologia – minha área de especialização – ganham contornos vívidos em sua prosa.

E agora, com “O Silêncio do Beija-flor”, a promessa é de uma jornada ainda mais intrincada, onde as sutilezas da alma parecem dançar com as verdades mais brutais do inconsciente. O título, por si só, é uma pérola de ambiguidade e beleza. O beija-flor, um ser tão pequeno e vibrante, cuja agilidade e delicadeza o tornam quase etéreo, evoca uma existência à beira do visível, uma melodia quase inaudível em sua velocidade. Seu silêncio pode ser a ausência de um canto, o luto por uma voz perdida, ou talvez uma forma de comunicação tão profunda que transcende a audição, acessível apenas àqueles dispostos a ouvir com a alma. No contexto desta narrativa, este silêncio pode ser a metáfora para as verdades suprimidas, os traumas não elaborados, ou a essência mais pura que se esconde sob camadas de artifício e ilusão.

No consultório, testemunhamos diariamente a engenhosidade da mente humana em proteger-se, em reescrever sua própria história para suportar o insuportável. Quantas vezes não nos pegamos questionando a validade de uma lembrança? A memória, essa função cognitiva tão fascinante e complexa, é o alicerce sobre o qual construímos nossa identidade. No entanto, ela não é uma gravação fidedigna, mas uma reconstrução constante, suscetível a vieses, a distorções, a omissões. Em casos extremos, como na amnésia que permeia a experiência de Cadu, ou nas sugestões de manipulação psíquica que pontuam a trama, a obra nos força a confrontar o quão maleável pode ser aquilo que consideramos inabalável em nosso senso de ser.

Este não é, portanto, um livro para ser lido com a superficialidade de quem busca apenas uma trama escapista. É uma obra que exige cumplicidade, paciência e uma disposição genuína para o mergulho. Vital Sousa tece uma rede de eventos e estados mentais que se assemelham, guardadas as devidas proporções, à complexidade de um labirinto cerebral, onde cada sinapse pode ser um caminho, uma falsa pista ou a chave para um insight transformador. A cada página, somos desafiados a decifrar não apenas o enredo, mas a nós mesmos, as ressonâncias que essa ficção profunda e inquietante provoca em nossas próprias paisagens internas.

Em um mundo onde a saúde mental ganha, felizmente, cada vez mais centralidade no debate público, narrativas como esta são de grande valor. Elas nos permitem explorar, de maneira segura e mediada pela arte, as zonas cinzentas da mente humana: o medo, a paranoia, a busca por controle, a resiliência diante da adversidade e a incessante procura por sentido. A obra de Sousa não oferece respostas prontas, nem pretende ser um manual de desenvolvimento pessoal. Pelo contrário, ele estimula o questionamento, convida à reflexão sobre o que é “normal” ou “anormal”, e como a percepção da realidade pode ser drasticamente diferente para cada indivíduo, dependendo de suas vivências, de seus traumas e, crucialmente, de suas memórias.

Minha experiência como neuropsicóloga me ensinou que a mente humana é um universo em constante expansão, dotado de uma capacidade assombrosa de adaptação e ressignificação. Contudo, essa plasticidade, essa habilidade de reconstruir, pode ser tanto uma bênção quanto uma maldição, especialmente quando operada por forças externas ou internas que visam o controle. “Arista – O Silêncio do Beija-flor” explora exatamente essa dualidade, a dança perigosa entre a autonomia da consciência e as forças que tentam moldá-la.

O autor, com a sensibilidade de um observador perspicaz, não se limita a contar uma história; ele a vive através de seus personagens, e nos convida a vivê-la com eles. A tensão entre o que é “lembrado” e o que é “real” torna-se quase palpável, e o leitor se vê impelido a discernir, junto com Cadu, qual a verdade que reside por trás do véu das aparências. É um convite à escuta atenta, não apenas dos diálogos e da trama, mas dos próprios silêncios, das entrelinhas, das omissões que, muitas vezes, guardam as revelações mais perturbadoras.

Esteja avisado: este não é um romance que se fecha em si mesmo; é um convite a revisitar a si mesmo, em espelhos por vezes desconfortáveis, em paisagens internas que talvez você não soubesse que existiam. A trilogia Arista não busca apenas entreter, mas provocar um movimento interno, uma desconstrução de certezas. E, talvez, a verdadeira magia da obra resida precisamente nessa capacidade de nos confrontar com a nossa própria capacidade de ressignificação e, por que não, de reinventar nossa própria narrativa.

Que a leitura de “Arista – O Silêncio do Beija-flor” seja para você, caro leitor, um catalisador de insights e uma jornada tão enriquecedora quanto tem sido para mim.

Que esta leitura seja para você um voo tão profundo e revelador quanto o próprio silêncio do beija-flor.


Dalila Dourado
Psicóloga, Neuropsicóloga, 
Especialista em Saúde Mental, Mestre em Psicologia.

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