Sinopse O Ponto dos Contos – Crônicas Improváveis reúne histórias bem-humoradas, irreverentes e surpreendentes que despertam aquilo que existe de mais espontâneo nas pessoas: o riso. Em tempos marcados pelo excesso de estresse, ansiedade e excesso de informações, a literatura também pode ser uma ferramenta de bem-estar. Cada página foi escrita para proporcionar momentos leves, divertidos e capazes de arrancar boas gargalhadas. Porque sorrir faz bem. E quando o sorriso aparece, ele merece ser bonito. É justamente nesse ponto que a literatura encontra a odontologia: enquanto o livro desperta o sorriso, os profissionais da saúde bucal cuidam para que ele seja saudável, bonito e duradouro. O Direito de Ser Estranho (Apresentação) Em um mundo obcecado pela produtividade e pela padronização do comportamento, vivemos em uma época particularmente inclinada a transformar diferenças, desconfortos e comportamentos incomuns em explicações rápidas. É o império do diagnóstico instantâneo: aquele qu...
"IA ou não IA, eis a questão." ~Telmah
Parece que finalmente descobrimos o grande método para identificar um texto produzido por Inteligência Artificial: procure um travessão, desconfie dos dois-pontos, fique atento aos conectivos e, se o sujeito apresentar três exemplos para explicar alguma coisa, chame imediatamente a perícia.
Não importa que o travessão tenha atravessado séculos de literatura, que os dois-pontos estejam pacificamente instalados na gramática desde muito antes de alguém imaginar que uma máquina pudesse escrever, que “portanto”, “além disso” e “em suma” façam parte do repertório de qualquer estudante razoavelmente alfabetizado ou que a estrutura de três argumentos seja uma velha conhecida da retórica, da publicidade, da literatura e até da conversa de botequim. Se esses recursos aparecerem juntos, porém, temos um suspeito. Afinal, alguém na internet disse que isso é “cara de texto de IA”. E, como sabemos, depois que alguma coisa ganha a respeitável chancela de uma postagem compartilhada quinhentas vezes, deixa de ser opinião e passa automaticamente à categoria de conhecimento científico. O escritor prevenido, então, começa a apagar suas digitais. Retira o travessão. Evita os dois-pontos. Troca “portanto” por uma construção mais tortuosa. Abandona a estrutura ternária. Desconfia de qualquer frase que tenha começo, meio e fim. Tudo para não parecer aquilo que, curiosamente, ele sempre foi: um escritor que aprendeu a escrever lendo outros escritores.
O fenômeno seria apenas engraçado se não revelasse uma coisa um pouco mais séria: estamos começando a modificar nossa maneira de escrever para não sermos confundidos com aquilo que as máquinas aprenderam a reproduzir. E aqui mora o paradoxo. A Inteligência Artificial Generativa não inventou a língua portuguesa, não criou o travessão, não descobriu os dois-pontos e tampouco recebeu, numa noite iluminada, a revelação divina de que três exemplos explicam melhor uma ideia. Ela aprendeu conosco. Foi alimentada por livros, artigos, ensaios, notícias, conversas, documentos, poemas, propagandas, manuais, teses, crônicas e por toda essa monumental coleção de coisas que nós, humanos, produzimos ao longo do tempo.
A máquina não chegou ao mundo dizendo “portanto”. Nós é que passamos séculos dizendo “portanto” e agora estamos indignados porque ela também diz. É quase como descobrir que o papagaio aprendeu uma palavra nossa e, em vez de admitir que ensinamos o bicho a falar, decidir que devemos parar de usar a palavra. O mais curioso é que o escritor desavisado, temendo que seu texto seja identificado como artificial, começa a combater justamente os elementos que fazem parte de sua própria formação literária. Passa a escrever contra o próprio repertório. Não usa determinada pontuação porque a IA usa. Não organiza o pensamento de determinada maneira porque a IA organiza. Evita determinadas palavras porque alguém publicou uma lista de “termos que denunciam ChatGPT”. E, nesse processo, começa a acontecer uma pequena tragédia autoral: o sujeito deixa de escrever para expressar uma ideia e passa a escrever para provar que não é uma máquina. É quando a busca pela autenticidade começa, ironicamente, a produzir uma escrita artificial. Porque nada pode ser mais artificial do que alterar deliberadamente a própria maneira de escrever para satisfazer um algoritmo de suspeita.
Talvez seja hora de parar de procurar a Inteligência Artificial no lugar errado. Ela não está escondida atrás de um travessão, de um “além disso” ou de três exemplos. E muito menos existe uma pontuação capaz de funcionar como impressão digital de uma máquina. Um texto não se torna humano porque contém erros de concordância, frases tortas ou pontuação errática. Da mesma forma, não se torna artificial porque é bem organizado, utiliza vocabulário elaborado ou apresenta uma argumentação coerente. A questão mais interessante está em outro lugar: na existência de uma voz.
Um texto pode estar gramaticalmente impecável e ser absolutamente vazio. Pode ser tecnicamente perfeito e não dizer absolutamente nada. Pode apresentar todas as características de uma redação humana e ainda assim parecer escrito por ninguém. E também pode utilizar todos os recursos que hoje são apontados como “marcas de IA” e carregar uma personalidade tão evidente que seria impossível confundi-lo com qualquer produção genérica. Talvez, "portanto", a grande tarefa do escritor contemporâneo não seja aprender a esconder a IA, mas aprender a não esconder a si mesmo. Se a máquina aprendeu conosco, não faz muito sentido fugirmos das nossas próprias referências para provar que somos diferentes dela. O que precisamos é fazer aquilo que ela ainda não pode fazer por nós: assumir nossas contradições, nossas obsessões, nossas experiências, nossas manias, nossas inadequações, nosso humor, nossas idiossincrasias e até nossos erros. Afinal, o problema nunca foi escrever como uma máquina. O problema é escrever sem deixar ninguém dentro do texto. E, se algum dia um especialista em identificação de IA disser que um escritor é suspeito porque utilizou dois-pontos, um travessão e três exemplos no mesmo artigo, talvez seja melhor não discutir. Apenas entregue a ele um livro de Machado de Assis, Clarice Lispector ou Fernando Pessoa e peça que procure as evidências. Depois, com alguma solenidade, pergunte: afinal, quem ensinou a máquina a escrever assim?
Talvez a Escrita (In)Criativa comece exatamente aí: quando paramos de tentar escrever de um jeito que pareça humano e voltamos a escrever do nosso jeito. No meu caso dos nossos jeitos.
Vital Sousa / Tonny Aguiar / Biu Di Braga
Quatro Editora / Escritor Efetivo / VTL Marketing
Quatro Editora / Escritor Efetivo / VTL Marketing


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