Não deixei o Dia Nacional do Escritor passar em branco... Talvez apenas o tenha deixado passar em preto e branco. Afinal, a folha de photobooth que acompanha esta publicação não é um exercício de vaidade, tampouco uma tentativa de provar que um escritor pode fazer dezesseis caretas diferentes diante de uma câmera. É, antes de tudo, uma pequena confissão. Ontem, 25 de julho, celebramos o Dia Nacional do Escritor . Hoje, resolvi comemorar a data mostrando um pouco daquilo que raramente aparece nas fotografias de divulgação de um livro: a estranha multidão que habita um único autor. Durante muito tempo me perguntaram por que assino obras com nomes diferentes. Alguns imaginam estratégia de mercado; outros, mero capricho estético. A verdade é menos simples e muito mais divertida. Vital Sousa é quem organiza o pensamento, estrutura projetos, pesquisa, estuda e procura dar coerência às ideias. Tonny Aguiar prefere a narrativa, as crônicas, o romance, os personagens que caminham entre o abs...
Em “Olhos da Resistência”, obra do jovem artista quilombola Wirveng Nathan, o silêncio ocupa quase toda a tela. Os cabelos negros e denso que envolve a figura não funciona apenas como fundo: ele reflete a atmosfera, peso e ausência na cena. No centro dessa escuridão, emerge o rosto de uma mulher parcialmente ocultado por uma venda negra – como um sinal de luto – que atravessa os olhos como um gesto de interdição.
A composição é simples, com poucos elementos, mas cada um deles possui forte carga simbólica. A venda não sugere neutralidade. Sugere apagamento. Há na cena a sensação de alguém impedido de olhar, falar ou existir plenamente dentro de uma estrutura que historicamente silencia determinados corpos.
Os lábios vermelhos se destacam: gritam e rompem a contenção cromática da obra e instauram tensão imediata. São o ponto mais vivo da pintura: presença, desejo, denúncia e sobrevivência coexistindo em um único detalhe. Já o dourado do adorno remete à ancestralidade, à força feminina e à permanência cultural negra, mesmo diante das violências históricas.
A força da obra está justamente no contraste entre ocultamento e presença. Mesmo vendada, a figura ocupa a tela de forma incontornável. Ela não desaparece. Permanece.
Ao afirmar que a obra trata do feminicídio – sofrido majoritariamente por mulheres negras –, Wirveng Nathan desloca sua pintura do campo meramente estético para um território político e humanitário. Sua arte não ilustra uma pauta: ela testemunha uma realidade.
Mais do que representar uma personagem específica, a pintura transforma uma experiência coletiva em imagem. Sua linguagem direta, intuitiva e emocional desloca a obra para além do mero retrato, aproximando-a de um testemunho visual sobre violência, invisibilidade e resistência.
Serviço:
Pintura "Olhos da Resistência", de Wirveng Nathan
Acrílica sobre tela (50 X 30)
Valor: 450,00 (Quatrocentos e Cinquenta Reais)
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