Até certo ponto de sua produção, Wirveng Natham construiu uma trajetória marcada pela representação da presença. Seus personagens e paisagens afirmam identidades e revelam vínculos com a cultura e a natureza. Em A Taça , entretanto, o jovem e emergente artista realiza um movimento silencioso, porém decisivo: substitui a presença pela ausência como elemento estruturador da obra. A mudança é perceptível desde a composição. Sobre um fundo negro absoluto, poucos traços são suficientes para delinear uma taça quase transparente. Não há referências que conduzam o olhar. Tudo o que permanece é um objeto reduzido à sua essência, envolvido por um vazio que deixa de ser simples espaço negativo para assumir protagonismo. A pintura passa a existir menos pelo que mostra do que pelo que deliberadamente escolhe não mostrar. Essa inversão é reforçada pela reflexão proposta pelo próprio artista. Em vez de recorrer ao conhecido dilema entre o recipiente "meio cheio" e "meio vazio", ...
Em Epílogos & Prólogos, há algo de, deliberadamente, paradoxal: apresenta-se como abertura e encerramento, mas, ao fim da leitura, revela-se ao leitor, sobretudo, como um gesto parado no ar, uma interrupção consciente. Não uma ruptura violenta, mas uma inflexão: quase uma mudança de rumo assumida em voz alta.
O livro, a partir de uma leitura crítica, não se sustenta apenas como reunião de textos poéticos. Ele funciona como dispositivo de reflexões. Mais do que versos, há aqui uma encenação da própria autoria ou, mais precisamente, da recusa de uma autoria única. Vital Sousa, Tonny Aguiar e Biu Di Braga não aparecem como heterônimos, pseudônimos ou máscaras que escondem um autor, mas como formas distintas de dizer aquilo que um só nome não conseguiria.
É justamente nesse ponto que reside sua maior força e também a tensão que atravessa a construção dos personagens e da obra.
A pseudonímia, tantas vezes confundida e questionada por editores e mediadores do mercado, face a uma suposta referência a heteronímia de Fernando Pessoa, não se apresenta aqui como artifício estético gratuito, mas como estratégia de expansão. Ao multiplicar vozes, o autor amplia também os modos de alcançar o leitor. Se, como ecoa na escolha implícita que atravessa o projeto, “todo poeta deve ir aonde alcança o seu leitor”, então dividir-se não é dispersar-se: é, antes, uma forma de fazer-se presente.
No entanto, o livro não ignora o custo dessa escolha.
Nos textos de abertura e fechamento da obra, há um claro acerto de contas com a própria poesia. Em Biu Di Braga, especialmente nos Epílogos, percebe-se o nascimento consciente de uma voz que reivindica a sua autonomia, inaugurando uma nova história, ainda que carregue em si os vestígios das outras que terminam. Em Vital Sousa, nos Prólogos e no Prefácio, a tentativa de organizar o caos, ainda que reconhecendo que esse gesto é, em si, falho. Já em Tonny Aguiar, no Posfácio intitulado O Silêncio como Escolha, encontra-se talvez o ponto mais contundente da obra: a decisão de interromper o fluxo poético.
Decisão tomada, não por esgotamento da linguagem, mas por excesso dela.
Esse posicionamento — abandonar a poesia para preservar o que ainda pode ser dito — não é novo na história literária, mas aqui ganha contornos mais profundos. A poesia, sempre apresentada como catarse, fuga e necessidade, passa a ser vista e reconhecida, também, como ruído, como procrastinação de projetos maiores, como teimosia que impede outras formas de construção narrativa.
O que se anuncia, então, não é o fim de toda poesia, mas o fim de um modo de habitá-la.
Bem no estilo de Tonny Aguiar, há algo de exagerado, até mesmo radical nessa decisão, sobretudo quando acompanhada do gesto simbólico de “queimar” os poemas restantes — transformando-os em matéria prima para outra linguagem: a Pintura. Desta forma, trata-se menos de destruição e mais de transmutação. A palavra cede lugar à imagem, o verso à narrativa, o impulso à elaboração.
Mesmo assim, o livro ainda não soa como despedida definitiva.
Pelo contrário: insistentemente nega esse lugar. Em diversos momentos, os próprios textos e poemas afirmam que não se trata de um adeus, mas de um lado, uma declaração de independência, e de outro, um recomeço cíclico, um retorno às origens. E talvez seja exatamente aí que o leitor mais atento percebe a contradição produtiva que sustenta a obra: tudo indica um fim, mas tudo também aponta para continuidade.
A poesia não desaparece — apenas transforma-se.
Passa a habitar o silêncio, como sugere o Posfácio de Tonny Aguiar, não como ausência, mas como escolha. E, nesse silêncio, permanece latente, como origem possível de tudo o que ainda virá.
Finalizando, do ponto de vista crítico, pode-se dizer que Epílogos & Prólogos não tenta resolver suas próprias tensões: e acerta ao não fazê-lo. A fragmentação ou a sobreposição de vozes e a oscilação entre manifesto e confissão não são falhas estruturais, mas parte constitutiva do projeto. No livro há, inclusive, momentos em que o excesso de autorreferência e de explicitação dos processos internos pode soar repetitivo; ainda assim, esse exagero é coerente com a proposta de expor, sem mediações, o mecanismo criativo e suas fissuras.
No final, o leitor não fica com a sensação de ter lido um livro de poemas no sentido tradicional. Fica com a impressão de ter testemunhado um Rito de Passagem.
Uma historia que termina
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