Sinopse O Ponto dos Contos – Crônicas Improváveis reúne histórias bem-humoradas, irreverentes e surpreendentes que despertam aquilo que existe de mais espontâneo nas pessoas: o riso. Em tempos marcados pelo excesso de estresse, ansiedade e excesso de informações, a literatura também pode ser uma ferramenta de bem-estar. Cada página foi escrita para proporcionar momentos leves, divertidos e capazes de arrancar boas gargalhadas. Porque sorrir faz bem. E quando o sorriso aparece, ele merece ser bonito. É justamente nesse ponto que a literatura encontra a odontologia: enquanto o livro desperta o sorriso, os profissionais da saúde bucal cuidam para que ele seja saudável, bonito e duradouro. O Direito de Ser Estranho (Apresentação) Em um mundo obcecado pela produtividade e pela padronização do comportamento, vivemos em uma época particularmente inclinada a transformar diferenças, desconfortos e comportamentos incomuns em explicações rápidas. É o império do diagnóstico instantâneo: aquele qu...
O EVENTO
JULHO DAS PRETAS
Ancestralidade, Resistência e Futuro
Celebrar o Julho das Pretas é reconhecer que a história do Brasil também foi escrita pelas mãos, pela coragem e pela inteligência de mulheres negras que transformaram a resistência em possibilidade de futuro. Entre elas, destaca-se Tereza de Benguela, líder do Quilombo do Quariterê, símbolo da luta pela liberdade, pela autonomia e pela organização coletiva. Sua trajetória ultrapassa os limites da memória histórica para tornar-se inspiração permanente às mulheres que, ainda hoje, seguem preservando territórios, culturas, saberes e modos de existir.
É sob essa inspiração que o Quilombo Mundo Novo, por meio do Coletivo de Mulheres Quilombolas As Kandaces e do Movimento Jovens Quilombolas, realiza mais uma edição do Julho das Pretas, no Espaço Território Vivo. Muito mais do que um calendário comemorativo, o evento constitui um encontro entre gerações, no qual memória e presente dialogam através da arte, da formação, da cultura e da convivência comunitária. Durante três dias, apresentações culturais, rodas de conversa, oficinas, exposições e diversas atividades reafirmam a identidade quilombola como patrimônio vivo e força transformadora do território.
Portanto, a realização do Julho das Pretas em um quilombo significa compreender que a ancestralidade não pertence apenas ao passado. Ela permanece viva nas narrativas compartilhadas, nos gestos cotidianos, na produção artística, na preservação das tradições e, sobretudo, na capacidade da comunidade de reinventar continuamente sua própria história. Cada atividade proposta reafirma que cultura, educação e participação social são instrumentos fundamentais para fortalecer a cidadania, combater o racismo e ampliar os espaços de representatividade da população negra.
É nesse contexto que a exposição Cartografias do Invisível, do artista quilombola Wirveng Nathan, integra a programação do evento. Suas pinturas dialogam com os mesmos valores que orientam o Julho das Pretas: pertencimento, memória, natureza, ancestralidade e resistência. Ao revelar paisagens simbólicas que muitas vezes escapam ao olhar cotidiano, a exposição convida o público a perceber que as maiores riquezas de um povo não se medem por bens materiais, mas pela preservação de sua identidade, de sua cultura e de sua relação com o território.
Mais do que uma celebração, o Julho das Pretas constitui um ato de afirmação coletiva. É a demonstração de que a história iniciada por mulheres como Tereza de Benguela continua sendo escrita, todos os dias, pelas mulheres quilombolas que mantêm viva a memória de seus ancestrais e constroem, com dignidade e esperança, os caminhos das futuras gerações. Assim, o Coletivo de Mulheres Quilombolas As Kandaces no Quilombo Mundo Novo reafirma seu compromisso com a valorização da cultura afro-brasileira e convida cada visitante a reconhecer que preservar essas histórias é também ampliar o horizonte democrático e cultural de todo o país.
Serviço:
JULHO DAS PRETAS – Ancestralidade, Resistência e Futuro
24 à 26 de Julho | 14 às 18 Horas
Espaço Terrítório Vivo - Quilombo Mundo Novo, Buíque, PE
A EXPOSÇÃO
Nesta exposição, a pintura opera como um campo de atravessamentos, onde o visível não se encerra em si mesmo, mas se abre como pergunta. Cada obra é menos uma resposta e mais um deslocamento: algo que escapa ao óbvio, ao contorno imediato e insiste em permanecer em suspensão.
Realizada no Quilombo do Mundo Novo, em Buíque, PE, dentro do evento o Julho das Pretas, Cartografias do Invisível nasce do encontro entre arte, ancestralidade e pertencimento. Não ocupa o território como cenário. Reconhece nele sua origem, sua linguagem e sua potência criadora.
As pinturas de Wirveng Nathan surgem de um olhar em formação. Um olhar que observa o cotidiano, acolhe a memória coletiva e transforma experiência em imagem. Não para reproduzir o mundo, mas para traduzi-lo.
O que se apresenta não é uma figura única do feminino, mas suas ressonâncias. Multiplicidades que se organizam em signos, gestos, ausências e silêncios. Não há uma forma a ser fixada, mas possibilidades de leitura que se insinuam, se cruzam, se sobrepõem e, por vezes, se contradizem. O feminino aqui não se revela como essência, mas como linguagem em transformação.
Cada tela nasce de uma travessia. E, curiosamente, todas parecem encontrar o mesmo destino.
O olhar do espectador é convocado a participar desse desenho invisível. Porque há uma cartografia que não se impõe — ela se revela no tempo da fruição, no intervalo entre o que é visto e o que permanece à margem da visão. Mesmo quando não se apresentam como retratos, as obras revelam diferentes expressões da presença feminina. A mulher aparece como memória, como natureza, como silêncio, como força, como ancestralidade e como possibilidade de futuro.
Não se trata de uma escolha temática previamente anunciada. É uma recorrência que emerge naturalmente do processo criativo do artista, tornando-se uma espécie de cartografia afetiva onde cada pintura amplia a compreensão da anterior. Nesse percurso, a figura feminina deixa de representar apenas uma personagem. Transforma-se em território.
Território onde habitam as marcas da resistência, as cicatrizes da história, os gestos de cuidado, a espiritualidade, a beleza e a capacidade permanente de recriar a vida.
Por isso, apresentar esta exposição durante o Julho das Pretas não significa apenas integrar uma programação cultural. Significa reconhecer que essas imagens dialogam profundamente com a celebração das mulheres quilombolas, não como ilustração de um discurso, mas como expressão artística de experiências que continuam vivas dentro do próprio território.
Ao ocupar o Quilombo como espaço expositivo, rompe-se também uma lógica histórica segundo a qual a legitimidade da arte dependeria sempre dos grandes centros. Aqui acontece o inverso. O território não recebe a arte. É a arte que nasce do território.
As classificações tradicionais — "naïf", "primitiva", "regional" — tornam-se insuficientes. Não porque estejam equivocadas, mas porque não conseguem abarcar a complexidade de uma produção que dialoga simultaneamente com memória, identidade, contemporaneidade e experimentação plástica. As pinturas de Nathan não procuram confirmar expectativas. Elas produzem perguntas. E talvez seja justamente essa sua maior força.
Cada visitante encontrará um caminho diferente diante das obras. Alguns reconhecerão paisagens afetivas. Outros perceberão ecos da ancestralidade africana. Outros ainda serão atravessados pela delicadeza dos gestos, pela força dos silêncios ou pelas tensões presentes nas composições mais abstratas.
Nenhuma dessas leituras esgota a obra. Todas convivem. Porque a pintura permanece maior do que qualquer explicação. Por isso, os textos que acompanham esta exposição não pretendem oferecer respostas. São apenas portas entreabertas. Quem conduz a travessia é sempre o olhar do visitante. E quem conta a história, no fim, continua sendo a própria pintura.
Resumindo: Wirveng Nathan não pinta aquilo que vê. Pinta aquilo que permanece quando fechamos os olhos.
Serviço:
CARTOGRAFIAS DO INVISÍVEL – O que não se vê também desenha o mundoWirveng Nathan
24 à 26 de Julho | 14 às 18 Horas
Espaço Terrítório Vivo - Quilombo Mundo Novo, Buíque, PE

Tonny Aguiar

