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Novidade

A Taça - Uma Reflexão

Até certo ponto de sua produção, Wirveng Natham construiu uma trajetória marcada pela representação da presença. Seus personagens e paisagens afirmam identidades e revelam vínculos com a cultura e a natureza. Em A Taça , entretanto, o jovem e emergente artista realiza um movimento silencioso, porém decisivo: substitui a presença pela ausência como elemento estruturador da obra. A mudança é perceptível desde a composição. Sobre um fundo negro absoluto, poucos traços são suficientes para delinear uma taça quase transparente. Não há referências que conduzam o olhar. Tudo o que permanece é um objeto reduzido à sua essência, envolvido por um vazio que deixa de ser simples espaço negativo para assumir protagonismo. A pintura passa a existir menos pelo que mostra do que pelo que deliberadamente escolhe não mostrar. Essa inversão é reforçada pela reflexão proposta pelo próprio artista. Em vez de recorrer ao conhecido dilema entre o recipiente "meio cheio" e "meio vazio", ...

Wirveng Nathan: Resistência e Luta


Wirveng Nathan: Arte, Memória e Resistência
Por Vital Sousa, Escritor e Consultor Editorial

Apresentar um artista em processo de criação de si mesmo é uma tarefa que exige certa dose de coragem e toques de loucura: algo que me é familiar. Comecei a escrever aos dez anos, fascinado pela visão de mundos das imagens e ilustrações de livros e revistas que me chegavam às mãos e eram devorados por minha mente sequiosa. Ganhei, assim, a fama de garoto estranho, para a maioria, e de louco para os menos condescendentes. Por isso, sinto-me à vontade, como quem conversa no terreiro, sob a sombra de uma árvore, para mergulhar no passado e nas pinturas de Wirveng Nathan.

Garoto quilombola do Mundo Novo, em Buíque (PE), Nathan tem apenas alguns anos a mais que eu tinha quando descobri meu caminho pelas palavras. Ele revela um talento singular ao transformar memórias e vivências em pintura. Já com postura de gente grande, conta que começou a desenhar aos quatro anos de idade. Isso, em parte, explica sua precoce maturidade artística. Hoje, ao abrir suas asas sobre as telas, expressa seu cotidiano movido por “sentimentos de resistência e de luta”. Essa frase, por si só, é um manifesto: a pedra fundamental de sua vida e de sua obra.

As pinturas de Wirveng Nathan, Wirveng como assina suas telas, dialogam naturalmente com a Arte Naïf, produzida por autodidatas sem formação acadêmica, marcada pela espontaneidade, originalidade e liberdade expressiva. Suas obras figurativas e narrativas, de cores vibrantes e cenários detalhados, refletem um universo pessoal e instintivo, repleto de alegria, memória e pertencimento.

Em suas telas, há uma força expressiva genuína e rara, sobretudo em artistas autodidatas em processo de afirmação identitária e estética. Wirveng demonstra domínio intuitivo da composição, do equilíbrio cromático e uma sensibilidade empírica para o poder da cor e da forma na construção da identidade.

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Identidade e Território no Olhar Autodidata Quilombola
Por Tonny Aguiar, Escritor e Galerista

As pinturas deste jovem artista quilombola revelam um gesto de afirmação e pertencimento. São obras que nascem do chão onde ele pisa, do ar que respira e das memórias que o formam. Ao pintar, ele não busca imitar o mundo: busca reconhecê-lo em si mesmo.

Em sua trajetória autodidata, a arte surge como instrumento de libertação e narrativa do que os livros raramente contam: o cotidiano, o afeto, a força e a beleza da vida quilombola. Seu olhar é direto e carregado de uma expressividade intuitiva que dialoga com o universo de artistas populares como Heitor dos Prazeres, Djanira da Motta e Silva e José Antônio da Silva. Assim como eles, Wirveng se vale da cor, da forma e da simplicidade para comunicar mundos complexos.

A pintura “Retrato feminino com turbante” emerge como ícone de ancestralidade. A mulher negra, altiva, adornada com turbante e brinco colorido, olha o horizonte com serenidade e força. O fundo neutro confere destaque à figura e a consagra como símbolo de resistência e beleza afro-brasileira. O contorno firme e as cores vibrantes revelam segurança e identidade: é o retrato de uma memória coletiva.

Na obra, “Casa e árvore diante das montanhas”, a casa e a paisagem tornam-se extensões do corpo e da memória. As montanhas, o céu e o sol formam um espaço afetivo onde o olhar do artista busca abrigo e reconhecimento. O verde e o azul sugerem calma; a árvore seca, ao centro, evoca passagem, tempo e resistência, temas profundos da vivência quilombola. Tudo é simples, mas nada é ingênuo: o gesto pictórico traduz o equilíbrio entre o vivido e o sonhado.

Essas telas marcam o início de um caminho. São registros de um olhar que se constrói entre tradição e futuro, aprendizado empírico e sensibilidade poética. O território deixa de ser apenas espaço geográfico para tornar-se lugar de fala e criação.

Wirveng Nathan se revela autodidata, mas guiado por uma herança coletiva. Sua arte é espelho e voz. Uma forma de existir no mundo com cor, coragem e verdade.

Retrato feminino com turbante

Essa obra chama a atenção e evidencia síntese, firmeza de traço e consciência simbólica. A figura feminina, de perfil, me faz lembrar de figuras importantes do Quilombo Mundo Novo e é tratada com respeito e solenidade, remetendo a uma ancestralidade forte e silenciosa. O uso do plano de fundo neutro valoriza a personagem e acentua a cor da pele, o olhar expressivo, os lábios e o turbante.

A tela faz lembrar de pinturas com influência da estética afro-brasileira contemporânea, próxima ao trabalho de Heitor dos Prazeres, considerando a simplicidade das linhas e a frontalidade, assim como a expressividade icônica de Carybé, embora reinterpretada com uma voz própria e ainda imatura.

O traço preto que contorna a figura, um recurso muito utilizado por artistas populares, traz à lembrança a linguagem de Antônio Poteiro, que também valorizava o contorno e a forma simbólica sobre o realismo anatômico.

A tela demonstra um bom domínio intuitivo de composição e equilíbrio cromático. O artista já compreende, de maneira empírica, o poder da cor e da forma na construção de identidade.

Casa e árvore diante das montanhas

Nesta Obra, Wirveng se volta à memória e ao pertencimento territorial. O tema da casa, da paisagem rural e da natureza é comum em autodidatas que pintam o próprio entorno. Nos remete a José Antônio da Silva, Mestre Vitalino, numa linguagem tridimensional, e Raimundo Cela.

O uso do verde e do azul indica busca de serenidade e perspectiva, enquanto a árvore sem folhas e o telhado em tons terrosos criam contrastes emocionais. O sol alaranjado e as montanhas dão profundidade. Mesmo com a técnica, ainda, em desenvolvimento, Wirveng consegue demonstrar a sua intenção em pinceladas instintivas.

Há uma poética da simplicidade: o desenho não busca precisão, mas emoção. Isso aproxima o artista de nomes como Darcy Penteado e Djanira da Motta e Silva, todos autodidatas que encontraram no cotidiano popular e na memória afetiva o eixo de sua arte.

Nessa Obra a composição é bem distribuída, uso equilibrado de cor e espaço. Demonstra sensibilidade para perspectiva atmosférica e simbolismo.

Em ambos os trabalhos há um elo entre identidade, memória e resistência, traço marcante na arte quilombola contemporânea. Assim como Heitor dos Prazeres, Djanira e José Antônio da Silva, o jovem artista Wirveng Nathan demonstra:
  • Autonomia Estilística Intuitiva no traço seguro e composição simbólica;
  • Uso Expressivo da Cor como linguagem emocional
  • Temática de Origem na ancestralidade, lugar de fala e território;
  • Busca por Reconhecimento através da representação do próprio lugar de fala e pertencimento.
Esses elementos são os mesmos que levaram autodidatas de origem popular ao reconhecimento nacional e internacional, quando conseguiram consolidar uma identidade plástica coerente com suas raízes.

Cenas Cotidianas do Quilombo


Serviço:
No dia 16-Out-2025, Wirveng estará participando de sua Primeira Exposição Coletiva, dentro da FELIS - Feira Literária do Sertão, em Arcoverde (PE).

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Em Epílogos & Prólogos , há algo de, deliberadamente, paradoxal: apresenta-se como abertura e encerramento, mas, ao fim da leitura, revela-se ao leitor, sobretudo, como um gesto parado no ar, uma interrupção consciente. Não uma ruptura violenta, mas uma inflexão: quase uma mudança de rumo assumida em voz alta. O livro, a partir de uma leitura crítica, não se sustenta apenas como reunião de textos poéticos. Ele funciona como dispositivo de reflexões. Mais do que versos, há aqui uma encenação da própria autoria ou, mais precisamente, da recusa de uma autoria única. Vital Sousa , Tonny Aguiar e Biu Di Braga  não aparecem como heterônimos, pseudônimos ou máscaras que escondem um autor, mas como formas distintas de dizer aquilo que um só nome não conseguiria. É justamente nesse ponto que reside sua maior força e também a tensão que atravessa a construção dos personagens e da obra. A pseudonímia, tantas vezes confundida e questionada por editores e mediadores do mercado, face a uma ...

Abraço da Natureza

Em Abraço da Natureza , Wirveng Nathan nos convida a desacelerar e a reencontrar aquilo que frequentemente esquecemos na vida contemporânea: a paz nasce quando reconhecemos que fazemos parte da paisagem e não quando tentamos nos colocar acima dela. Nesta obra, Nathan transforma a paisagem em abrigo espiritual. O horizonte amplo, as colinas suaves e o céu luminoso criam um cenário de serenidade que convida à pausa e à contemplação. Mais do que representar um lugar, o artista revela uma relação profunda de pertencimento com o território onde construiu sua identidade. As pequenas figuras espalhadas pelo campo — caminhando de mãos dadas, brincando ou simplesmente repousando — reforçam essa ideia de conexão. Diante da vastidão da paisagem, o ser humano aparece em escala reduzida, lembrando que a verdadeira grandeza não está no domínio da natureza, mas na capacidade de viver em harmonia com ela. O sol que ilumina a cena, o céu aberto, as nuvens em movimento, as colinas e a vegetação que oc...

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Assim como existem flores que escolhem o dia e outras aguardam a chegada da noite, em Flores Noturnas , Wirveng Nathan nos conduz a um espaço onde a escuridão não representa ausência, mas possibilidade. O fundo profundo que envolve a composição não sufoca as formas; torna-se o ambiente onde elas encontram condições para existir e florescer. A natureza sempre encontra um caminho e algumas espécies parecem compreender esse segredo. O mandacaru, a dama-da-noite e a flor-da-lua revelam sua plenitude quando a luz diminui. A noite, que poderia sugerir recolhimento, transforma-se em território de encontro. Morcegos, mariposas e outros seres noturnos participam silenciosamente desse ciclo, renovando a vida e estabelecendo relações invisíveis aos olhos apressados. Talvez seja essa a delicada força que atravessa a pintura. As flores surgem como presenças que não disputam espaço com a escuridão. Habitam-na e encontram nela sua própria forma de permanência. Na tela, nada é definitivo para o olhar...