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Novidade

As Faces de Eva - Um Ato Público, Púbico e Não Pudico

Na psicologia do desenvolvimento, a região púbica e o surgimento dos pelos pubianos marcam a travessia da infância para a puberdade. É o sinal visível de que algo amadurece, de que o corpo anuncia uma passagem irreversível rumo à maturidade sexual e simbólica. Não se trata apenas de biologia, mas de consciência: o corpo diz aquilo que a mente ainda precisa aprender a sustentar. Na psicanálise, o púbico - esse território tantas vezes silenciado ou coberto de pudor - não possui um significado fixo ou universal. Ele emerge como imagem, sonho, associação livre. Pode representar a origem da vida, a potência criadora, a vulnerabilidade extrema ou o desejo. Seu sentido é sempre singular, inconsciente, atravessado pela história de cada sujeito. O que se cala no discurso retorna no símbolo. É a partir dessa chave que nasce As Faces de Eva. Este evento se afirma como "Um Ato Público, Púbico e Não Pudico" porque recusa a infantilização do debate sobre gênero, corpo, poder e responsabil...

Wirveng Nathan: Resistência e Luta


Wirveng Nathan: Arte, Memória e Resistência
Por Vital Sousa, Escritor e Consultor Editorial

Apresentar um artista em processo de criação de si mesmo é uma tarefa que exige certa dose de coragem e toques de loucura: algo que me é familiar. Comecei a escrever aos dez anos, fascinado pela visão de mundos das imagens e ilustrações de livros e revistas que me chegavam às mãos e eram devorados por minha mente sequiosa. Ganhei, assim, a fama de garoto estranho, para a maioria, e de louco para os menos condescendentes. Por isso, sinto-me à vontade, como quem conversa no terreiro, sob a sombra de uma árvore, para mergulhar no passado e nas pinturas de Wirveng Nathan.

Garoto quilombola do Mundo Novo, em Buíque (PE), Nathan tem apenas alguns anos a mais que eu tinha quando descobri meu caminho pelas palavras. Ele revela um talento singular ao transformar memórias e vivências em pintura. Já com postura de gente grande, conta que começou a desenhar aos quatro anos de idade. Isso, em parte, explica sua precoce maturidade artística. Hoje, ao abrir suas asas sobre as telas, expressa seu cotidiano movido por “sentimentos de resistência e de luta”. Essa frase, por si só, é um manifesto: a pedra fundamental de sua vida e de sua obra.

As pinturas de Wirveng Nathan, Wirveng como assina suas telas, dialogam naturalmente com a Arte Naïf, produzida por autodidatas sem formação acadêmica, marcada pela espontaneidade, originalidade e liberdade expressiva. Suas obras figurativas e narrativas, de cores vibrantes e cenários detalhados, refletem um universo pessoal e instintivo, repleto de alegria, memória e pertencimento.

Em suas telas, há uma força expressiva genuína e rara, sobretudo em artistas autodidatas em processo de afirmação identitária e estética. Wirveng demonstra domínio intuitivo da composição, do equilíbrio cromático e uma sensibilidade empírica para o poder da cor e da forma na construção da identidade.

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Identidade e Território no Olhar Autodidata Quilombola
Por Tonny Aguiar, Escritor e Galerista

As pinturas deste jovem artista quilombola revelam um gesto de afirmação e pertencimento. São obras que nascem do chão onde ele pisa, do ar que respira e das memórias que o formam. Ao pintar, ele não busca imitar o mundo: busca reconhecê-lo em si mesmo.

Em sua trajetória autodidata, a arte surge como instrumento de libertação e narrativa do que os livros raramente contam: o cotidiano, o afeto, a força e a beleza da vida quilombola. Seu olhar é direto e carregado de uma expressividade intuitiva que dialoga com o universo de artistas populares como Heitor dos Prazeres, Djanira da Motta e Silva e José Antônio da Silva. Assim como eles, Wirveng se vale da cor, da forma e da simplicidade para comunicar mundos complexos.

A pintura “Retrato feminino com turbante” emerge como ícone de ancestralidade. A mulher negra, altiva, adornada com turbante e brinco colorido, olha o horizonte com serenidade e força. O fundo neutro confere destaque à figura e a consagra como símbolo de resistência e beleza afro-brasileira. O contorno firme e as cores vibrantes revelam segurança e identidade: é o retrato de uma memória coletiva.

Na obra, “Casa e árvore diante das montanhas”, a casa e a paisagem tornam-se extensões do corpo e da memória. As montanhas, o céu e o sol formam um espaço afetivo onde o olhar do artista busca abrigo e reconhecimento. O verde e o azul sugerem calma; a árvore seca, ao centro, evoca passagem, tempo e resistência, temas profundos da vivência quilombola. Tudo é simples, mas nada é ingênuo: o gesto pictórico traduz o equilíbrio entre o vivido e o sonhado.

Essas telas marcam o início de um caminho. São registros de um olhar que se constrói entre tradição e futuro, aprendizado empírico e sensibilidade poética. O território deixa de ser apenas espaço geográfico para tornar-se lugar de fala e criação.

Wirveng Nathan se revela autodidata, mas guiado por uma herança coletiva. Sua arte é espelho e voz. Uma forma de existir no mundo com cor, coragem e verdade.

Retrato feminino com turbante

Essa obra chama a atenção e evidencia síntese, firmeza de traço e consciência simbólica. A figura feminina, de perfil, me faz lembrar de figuras importantes do Quilombo Mundo Novo e é tratada com respeito e solenidade, remetendo a uma ancestralidade forte e silenciosa. O uso do plano de fundo neutro valoriza a personagem e acentua a cor da pele, o olhar expressivo, os lábios e o turbante.

A tela faz lembrar de pinturas com influência da estética afro-brasileira contemporânea, próxima ao trabalho de Heitor dos Prazeres, considerando a simplicidade das linhas e a frontalidade, assim como a expressividade icônica de Carybé, embora reinterpretada com uma voz própria e ainda imatura.

O traço preto que contorna a figura, um recurso muito utilizado por artistas populares, traz à lembrança a linguagem de Antônio Poteiro, que também valorizava o contorno e a forma simbólica sobre o realismo anatômico.

A tela demonstra um bom domínio intuitivo de composição e equilíbrio cromático. O artista já compreende, de maneira empírica, o poder da cor e da forma na construção de identidade.

Casa e árvore diante das montanhas

Nesta Obra, Wirveng se volta à memória e ao pertencimento territorial. O tema da casa, da paisagem rural e da natureza é comum em autodidatas que pintam o próprio entorno. Nos remete a José Antônio da Silva, Mestre Vitalino, numa linguagem tridimensional, e Raimundo Cela.

O uso do verde e do azul indica busca de serenidade e perspectiva, enquanto a árvore sem folhas e o telhado em tons terrosos criam contrastes emocionais. O sol alaranjado e as montanhas dão profundidade. Mesmo com a técnica, ainda, em desenvolvimento, Wirveng consegue demonstrar a sua intenção em pinceladas instintivas.

Há uma poética da simplicidade: o desenho não busca precisão, mas emoção. Isso aproxima o artista de nomes como Darcy Penteado e Djanira da Motta e Silva, todos autodidatas que encontraram no cotidiano popular e na memória afetiva o eixo de sua arte.

Nessa Obra a composição é bem distribuída, uso equilibrado de cor e espaço. Demonstra sensibilidade para perspectiva atmosférica e simbolismo.

Em ambos os trabalhos há um elo entre identidade, memória e resistência, traço marcante na arte quilombola contemporânea. Assim como Heitor dos Prazeres, Djanira e José Antônio da Silva, o jovem artista Wirveng Nathan demonstra:
  • Autonomia Estilística Intuitiva no traço seguro e composição simbólica;
  • Uso Expressivo da Cor como linguagem emocional
  • Temática de Origem na ancestralidade, lugar de fala e território;
  • Busca por Reconhecimento através da representação do próprio lugar de fala e pertencimento.
Esses elementos são os mesmos que levaram autodidatas de origem popular ao reconhecimento nacional e internacional, quando conseguiram consolidar uma identidade plástica coerente com suas raízes.

Cenas Cotidianas do Quilombo


Serviço:
No dia 16-Out-2025, Wirveng estará participando de sua Primeira Exposição Coletiva, dentro da FELIS - Feira Literária do Sertão, em Arcoverde (PE).

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Desejos é um resumo do estilo expressionista de Cicero Souza que mistura escultura, modelagem e marchetaria para compor uma representação tridimensional de uma angústia. Ao vê-la, torna-se inseparável da Obra, o pensamento de um preceito Budista: “Não deseje, não sofra." Essa visão é corroborada pela composição da Obra: a peça que representa os grilhões que prendem as pernas da figura humana, é totalmente livre, mostrando aos incautos que a “prisão” está, apenas, na mente do ser humano, podendo o mesmo libertar-se na hora que bem “desejar”; mas se desejar continuar preso, que o faça de forma consciente. Desejos: escultura (40x18x30), em madeira de Umburana, do Artista Cícero Souza, do Vale do Catimbau. Lado Direito Costas Lado Esquerdo Certificado de Autenticidade: TG202411020002PU da Tonny Galeria . Para Comprar fale com o Tonny