Não deixei o Dia Nacional do Escritor passar em branco... Talvez apenas o tenha deixado passar em preto e branco. Afinal, a folha de photobooth que acompanha esta publicação não é um exercício de vaidade, tampouco uma tentativa de provar que um escritor pode fazer dezesseis caretas diferentes diante de uma câmera. É, antes de tudo, uma pequena confissão. Ontem, 25 de julho, celebramos o Dia Nacional do Escritor . Hoje, resolvi comemorar a data mostrando um pouco daquilo que raramente aparece nas fotografias de divulgação de um livro: a estranha multidão que habita um único autor. Durante muito tempo me perguntaram por que assino obras com nomes diferentes. Alguns imaginam estratégia de mercado; outros, mero capricho estético. A verdade é menos simples e muito mais divertida. Vital Sousa é quem organiza o pensamento, estrutura projetos, pesquisa, estuda e procura dar coerência às ideias. Tonny Aguiar prefere a narrativa, as crônicas, o romance, os personagens que caminham entre o abs...
AVISO!
O texto a seguir não é uma Apresentação Protocolar: é uma Leitura Crítica com tensão, conceito e identidade autoral. Necessariamente porque a obra exige, porque “A Dança dos Macacos” não é ficção: é fricção.
A OBRA
A Dança dos Macacos não é um livro: é um curto-circuito em mentes conformistas e preguiçosas. Aqui não há compromissos com beleza, harmonia ou conservadorismo. Há uma operação deliberada de sabotagem: da linguagem, do leitor, da ideia confortável e reacionária da poesia como ornamento.
O signo “macaco” historicamente usado como instrumento de violência racial, não é apenas ressignificado. Ele é explodido, repetido até a exaustão, escarrado, cuspido e esfregado na cara do leitor até perder qualquer possibilidade de neutralidade.
Aqui não há sutilezas porque não há tempo. Não há metáforas elegantes porque a realidade não é elegante. O que se constrói, como verdade, é uma antiestética programada:
- repetição como martelo.
- fragmento como estilhaço.
- ironia como veneno,
- humor como armadilha.
A linguagem não quer ser bela. Ela se apresenta e quer ser irrecusável.
Se em Arthur Rimbaud havia o “desregramento dos sentidos”, aqui há o desregramento da consciência social. Se Paulo Leminski jogava com o mínimo, Flávio Magalhães usa o mínimo como projétil. O livro não denuncia apenas o racismo. Ele é uma rajada no peito da injustiça, revelando o funcionamento cotidiano da violência: no discurso, na mídia, na omissão e, principalmente, na normalização. Cada poema é um registro de falha civilizatória. Não há catarse. Não há redenção. Há repetição porque a violência também se repete.
Ler este livro não é um ato estético. É um ato político. E como todo ato político real, ele cobra um preço: o desconforto de se reconhecer dentro do problema.
A Dança dos Macacos não é ficção: é fricção!
O AUTOR
José Flávio de Oliveira Magalhães não escreve para ser compreendido. Escreve para não ser ignorado.
Sua trajetória atravessa literatura, teatro e artes visuais sem apontar para uma busca de estilo, mas para uma insistência: dizer, repetir, insistir até que a linguagem deixe de ser confortável.
Professor de Letras por formação, mas indisciplinado por vocação, Flávio opera fora das zonas seguras da literatura institucional. Sua escrita não se submete à lapidação formal clássica: ela se organiza pela urgência. Não há preocupação em agradar. Há necessidade de expor.
Em A Dança dos Macacos, essa postura atinge o limite: o autor abandona qualquer mediação estética e assume o risco da frontalidade.
Isso cobra um preço: a crítica pode chamar de panfleto, o leitor alienado – carente de consciência de classe e letramento racial – pode recuar, o mercado pode rejeitar, mas é exatamente aí que sua força se instala. Porque sua obra não tenta resolver contradições. Ela as mantém como feridas abertas.
Se Jean-Michel Basquiat escrevia nas telas como quem risca um sistema em colapso, Magalhães escreve como quem não aceita o silêncio como alternativa. Seu trabalho não busca permanência. Busca impacto. E impacto, aqui, não é efeito. É consequência porque A Dança dos Macacos não é ficção é fricção.
RESUMO
Não há mais espaço para leitura neutra. Ou o leitor entra ou recua, mas se entrar, precisa aceitar uma condição: não sair ileso.
Porque a antiestética aqui não é um recurso. É uma escolha ética. E toda escolha ética verdadeira desestabiliza, desperta para a traumática transição da ignorância confortável para a realidade dolorosa e obriga o leitor a escolher, conscientemente, a sua verdade.

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