Não deixei o Dia Nacional do Escritor passar em branco... Talvez apenas o tenha deixado passar em preto e branco. Afinal, a folha de photobooth que acompanha esta publicação não é um exercício de vaidade, tampouco uma tentativa de provar que um escritor pode fazer dezesseis caretas diferentes diante de uma câmera. É, antes de tudo, uma pequena confissão. Ontem, 25 de julho, celebramos o Dia Nacional do Escritor . Hoje, resolvi comemorar a data mostrando um pouco daquilo que raramente aparece nas fotografias de divulgação de um livro: a estranha multidão que habita um único autor. Durante muito tempo me perguntaram por que assino obras com nomes diferentes. Alguns imaginam estratégia de mercado; outros, mero capricho estético. A verdade é menos simples e muito mais divertida. Vital Sousa é quem organiza o pensamento, estrutura projetos, pesquisa, estuda e procura dar coerência às ideias. Tonny Aguiar prefere a narrativa, as crônicas, o romance, os personagens que caminham entre o abs...
"Alguns homens veem as coisas como são,
e dizem 'Por quê?' Eu sonho com as coisas
que nunca foram e digo 'Por que não ?'"
- Bernard Shaw
Tenho plena consciência de que tudo que passei e relato neste livro é uma ínfima porção da realidade da Transamazônica e da vida do seu povo, bem como uma ínfima parte do dia-a-dia dos meus companheiros de viagem: os Caminhoneiros.A história da Transamazônica bem poderia ser um exemplar texto do realismo fantástico, digno de Gabriel Garcia Marquez. As Macondos se multiplicam às margens da BR - 230. As histórias e lendas sobre seus construtores e seus atuais habitantes são tão ricas que muitas delas mereceriam um livro à parte.
Conversando com o proprietário de um Posto de combustíveis, Ponto de Apoio de Caminhoneiros em Apuí (AM), consegui sintetizar toda a história da Transamazônica em uma única palavra: "absurdo". A BR 230, a famosa Transamazônica, é um absurdo. Pelas milhares de vidas perdidas em sua construção e nos quarenta anos de acidentes de percurso; pelos investimentos públicos jogados igarapés abaixo; pela falta de comprometimento dos sucessivos governos, em todos os níveis, que só lembram desta obra inacabada em tempos de eleição; pelas possibilidades de riquezas não exploradas; pela exploração irregular da floresta... A lista de absurdos é infinita: infinita como a construção deste Sonho Fantástico.
Na reta final do percurso, um pensamento não sai da minha cabeça: a expressão “empreendimento sem fim” tornou-se um incômodo “grilo”. Desde o inicio do mapeamento de nossa Planilha, a frase foi usada de forma negativa, para descrever algo interrompido, inacabado, mas com o tempo, começou a ganhar outra acepção. Passou a dar significado para o ciclo de vida, a linha do tempo de tudo que estávamos construindo. A ideia da criação do i2 - instituto integrum era por si só a ideia de um “empreendimento sem fim”.
Não por acaso a ilustração que encabeça cada capítulo deste livro é uma teia de aranha. De todos os símbolos relacionados com um Rally, que seria mais apropriado usar como ilustração, nenhum tem a “aderência” de uma teia de aranha que para mim representa a determinação necessária no empreendedorismo, além de ser, naturalmente, o símbolo de nosso objetivo maior: construir uma Rede Social, na acepção literal da expressão. O acaso, ou a conspiração do universo, se fez presente para definir a capa do livro, fechando o ciclo de fundamentação para o seu título e subtítulo: 50 Anos Em 05 – Empreendimento Sem Fim.
Quantas teias uma aranha tece durante sua vida? Quantas vezes ela reconstrói sua aparentemente frágil fonte de recursos e sustentabilidade? Não consigo imaginar respostas para estas perguntas, minha mente é imediatamente inundada pela lembrança de uma música da infância, bem apropriada para o momento que finalizo minha narrativa explicando as motivações para a escolha da ilustração que encabeça seus capítulos, bem como do para a escolha do título e da capa do livro...
Subiu pela parede
Veio a chuva forte
E a derrubou
Já passou a chuva
O sol já vai surgir
E a dona aranha
Continua a subir.”
Será que algum empreendedor, além de mim, identifica-se com a D. Aranha? Em especial com sua determinação e porque não dizer obstinação em subir pela parede? Eu sempre penso nessa aranha, a razão pela qual ela obstinadamente sobe pela parede. Lembro-me de 2 (dois) empreendedores que uso nas Palestras CHA Empreendedor: Soichiro Honda e Thomas Edson tão obstinados quanto D. Aranha. Minha conclusão é que o objetivo da aranha é colocar no alto da parede o primeiro nó de sua teia. Toda dificuldade da escalada para, apenas, começar sua tarefa: empreender.
Inicialmente a expressão “empreendimento sem fim” estava presente em toda discussão do Warm Up do Rally M+is – Transamazônica. Era a expressão favorita para descrever A Rota dos Atoleiros Amarelos. Sua ambiguidade deu o toque final para que eu pensasse nela como subtítulo e finalmente como título deste Diário de Bordo com pretensões de Manual de Empreendedorismo.
Quando descrevi no esboço do projeto a BR – 230, a famosa Transamazônica, usei esta expressão de forma negativa, afinal o que se espera da construção de uma estrada é que ela seja concluída, tenha fim, o que não aconteceu com a BR em questão. Por outro lado, “sem fim”, também, significa algo duradouro, sustentável, como espero que sejam os negócios de todos e cada um dos empreendedores para quem este livro puder, de alguma forma, tornar-se útil.
Espero que estes empreendedores e os simples leitores deste Diário sejam os nós para a teia, cuja construção iniciamos em 12-jan-2015, às 05:22.
Excertos. Sousa, Vital. Empreendimento Sem Fim. Recife, 2015
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Vital Sousa
Quatro Editora